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Dois filmes neste ano na premiação do Oscar foram os grandes vencedores homenageando a própria arte cinematográfica em suas primeiras décadas, ou seja, o cinema mudo. O Artista, do diretor Michel Hazanavicius, vencedor do Oscar de filme do ano e A invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese, baseado no livro de mesmo nome. Indo além da homenagem, os dois filmes tratam sobre o problema da memória artística do público que se esquece dos seus ídolos em favor das inovações tecnológicas que o cinema atravessou durante aquelas décadas. Um público ávido por novidades e cruel com aqueles artistas pioneiros.

Em Hugo Cabret, o grande homenageado é George Méliès, diretor francês que, entre 1896 e 1913, dirigiu 531 filmes, a maioria de curtas. Após assistir a uma apresentação dos irmãos Lumière, Méliès se apaixonou por aquela “mágica” e correu atrás de equipamentos e fundou a Star Film, começando a produzir seus filmes trabalhando como diretor, produtor, figurinista, ator, envolvendo-se em todo o processo. Méliès antes do cinema havia sido um mágico ilusionista e trouxe toda essa experiência para transformar seus filmes em arte, diferenciando-se dos filmes do irmãos Lumière. Cenários móveis, explosões, personagens surreais, autômatos, diferentes formas de filmar, todo o tipo de inovação foi promovida e o público adorava, foi um grande sucesso durante anos.

O declínio do cinema de George Méliès começa quando, em 1908, Thomas Edison, o próprio, forma um conglomerado de empresas (MMPC) incluindo a Star Film para controlar a indústria do cinema nos EUA e Europa, e o custo disso foi o compromisso de produzir 68 filmes durante um ano. Logicamente com esse excessivo número de filmes, Méliès começou a se repetir, a fórmula de cinema foi se desgastando, e não demorou para que nos anos seguintes seus filmes não rendessem, tornando-se fracassos de bilheteria, mesmo alguns sendo inovadores.

O início da Primeira Grande Guerra foi a derrocada para Méliès parar de fazer filmes, além das dívidas que acumulou. Caiu no ostracismo durante quase duas décadas até que parte de sua obra foi revisitada por estudiosos da sétima arte e ele teve as homenagens que merecia. Hoje restam pouco mais de 200 filmes, já que muitos foram queimados durante a Guerra pelo próprio exército francês para transformar em matéria-prima e produzir entre outras coisas, saltos para sapatos.

Toda essa trajetória de Méliès é contada no filme de uma forma bonita, após as aventuras do garoto Hugo Cabret para decifrar os enigmas que se apresentam em sua vida e que vão levá-lo ao mestre desconhecido.

Em O artista, que tem como característica principal o fato de ser mudo e preto e branco, não há uma figura histórica real como Méliès, mas o filme gira em torno de George Valentin (provável homenagem ao ator Rodolfo Valentino), um grande astro do cinema mudo, ovacionado por multidões, e que vive do sucesso dos filmes em que atua.

A questão do esquecimento do público em O Artista, é justamente na recusa de Valentin querer participar de filmes falados, para ele a essência do cinema estava justamente em ser mudo. Quando o cinema falado apareceu nos últimos anos da década de 20, os filmes mudos foram logo abandonados, tornando-se fracassos de bilheteria e muitos artistas se recusaram a participar da nova onda. O dilema de Valentin é esse: perder tudo que conquistou, a fama, o dinheiro, o respeito, o reconhecimento público e abandonar o cinema ou deixar o orgulho de lado e ser capaz de voltar ao sucesso mesmo com filmes falados.

Dois filmes com características e caminhos próprios sobre o mesmo problema, discutidos de maneira inteligente e divertida. O cinema carrega está característica do estranhamento, recusa e aceitação do público, pois o contato é direto e o retorno imediato. O cinema colorido fez com que os filmes PB parecessem antigos. Os desenhos animados em película perderam espaço para os produzidos no computador. Agora assistimos a evolução do cinema em 3D, como Hugo Cabret. Uma coisa é certa, independente do gosto popular, que muitas vezes é envolvido e induzido a ver um filme pela sua tecnologia, modismo, etc, no fundo, a história é o que mais importa. Uma direção ruim, uma atuação sem vida, um roteiro mal escrito, tudo isso não adiantará por mais inovação tecnológica que o cinema incorpore. Os mestres em sua arte sempre serão recuperados em determinado tempo e reverenciados como verdadeiros artistas. Independente da massa.

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