Bauman & Tinder — O desenlace dos indivíduos na era da modernidade líquida

Ilustração por Marco Melgrati

Houve um tempo em que definições, formulações e ideologias eram sólidos.

No século XX com as revoluções burguesas, novas tecnologias e embates políticos, o mundo sólido foi cada vez mais perdendo espaço.

As novas tecnologias trouxeram com elas a fluidez do líquido. Isto fez com que o que era até então chamado de pós- modernidade passasse a ignorar barreiras, ocupando os espaços e diluindo as certezas.

Essa definição entre sólido e líquido foi brilhante criação do sociólogo polonês Zyhmunt Bauman, construída em suas mais de cinquenta obras, em que Bauman também sempre questionou as desigualdades e injustiças do mercado.

A liquidez da modernidade foi trazida por Bauman nos anos 90, evidenciando que vivemos em um momento de transição entre um projeto iluminista sob o aspecto de que o processo da emancipação através da razão está frustrado, tendo acarretado uma “vitória do capitalismo”. Esse novo homem, da chamada “modernidade líquida” seria fluído. A alegoria de liquidez se deu, por trazer a ideia de fácil modelagem. Enquanto o sólido não se encaixa perfeitamente em qualquer ambiente, o líquido possui fácil capacidade de adaptação.

Sobre as redes sociais, o sociólogo ensina que temos a rede — Network — em contraponto com os laços humanos de comunidade.

Qual seria, então, a diferença entre os dois?

A comunidade está ali, posta. Mesmo antes da existência do ser humano já existe uma comunidade ligada por alegorias culturais e históricas. Já a rede (network) não possui uma estrutura fixa, mas sim variável. Na rede você pode se conectar e desconectar com as pontas dos dedos, e é nesse sentido que a leveza do líquido pode ser encontrada na velocidade das relações.

Das redes sociais que mais se destacam nesses tempos pós- modernos, podemos ressaltar o Tinder. No mundo sólido, costumávamos conhecer pessoas através de relações em comum, e a liquidez de aplicativos como o Tinder veio como uma forma de quebrar esse universo de limitações geográficas.

Os primeiros sinais dessa liquidez nas relações de paquera se deram na era de 1990/2000, em que as pessoas recorriam a sites, como o famoso Bate Papo da UOL, para conhecer pessoas através das redes. Com o avanço tecnológico e os smartphones, não demoraria muito para um “aplicativo de paquera” começar a fazer sucesso entre os mais modernosos.

Qualquer deslize pode mudar sua vida

O slogan do tinder é Any swipe can change your life, o que em tradução livre seria “Qualquer deslize pode mudar sua vida”. Isso embasa o maior atrativo do aplicativo, que é a facilidade de se conectar e desconectar, evidenciando a liquidez das relações. No sistema Tinder de ser, você se depara com um verdadeiro catálogo de pessoas. Algumas colocam além de fotos suas descrições, e algo que dê a entender de forma extremamente objetiva sua personalidade. Basicamente, o Tinder possui duas ferramentas principais: deslizar para a esquerda, quando você “não quer combinar” – ou dar um ‘match’ – em alguém, e para a direita para fazer a combinação.

Ilustração por Marco Melgrati

A partir daí há um modo anônimo realizado apenas com quem você combinou, do qual só abrirá um chat de conversa caso a pessoa tenha combinado – dado ‘match’ – em você também.

As regras do jogo são basicamente essas.

Justamente, por ser uma pessoa um tanto quanto refratária a liquidez quando aplicada nos relacionamentos, confesso que resisti a entender tais regras.

Minha ideia original, seria escrever esse texto, apenas falando de todas as  desvantagens que o relacionamento líquido na hora de romance e paquera podem trazer a você.

Sem querer parecer uma romântica exagerada – coisa que não sou, ‘of course’, acredito que criar as relações quando elas existem “olhos nos olhos’ pode ser um evento muito mais vantajoso do que se render as facilidades da tecnologia.

Mas, citando Caetano, “como a vida é real e de viés”, um dia roubaram meu celular. Foi na Avenida Paulista, quando estava indo encontrar uma amiga, dentro de um lugar desses na Rua Augusta em que vendem comida vegana.

Essa amiga, como toda advogada que se apropria de todos os seus direitos – e um pouco também do direito dos outros- quis que o dono do lugar “puxasse nas câmeras” quem havia feito aquilo, para fazermos b.o e todas essas coisas chatas e burocráticas que se deve fazer num caso como esse.

Toda essa introdução, apenas para dizer que tivemos que ficar esperando horas o tal dono do bar chegar, para ver se podia ou não ajudar minha amiga que havia pego o meu caso como dela. E que todos os outros planos da noite foram encerrados. E que, entre uma bebida e outra na Augusta, entre um bolinho de arroz vegano e outro, deixei escapar a ela o quanto eu considerava o Tinder vazio, sem perceber que ela era noiva de uma pessoa que tinha conhecido no Tinder (sim, eu sabia disso, mas são dessas coisas que saem da sua boca sem você pensar). Disse inclusive que escreveria tal texto, questionando a característica óbvia da liquidez e da inconsistência da relação humana em relação ao aplicativo.

Foi então, que tudo que tinha de mais educado e fofo na minha amiga foi deixado de lado. E passaram-se mais horas de ela tentando me convencer (e o dono do bar que não chegava com as cenas do “crime”)… de que o Tinder era ótimo, maravilhoso, e que inclusive eu deveria naquele momento testar.

Tinha a desculpa perfeita. Estava sem meu celular.

Isso não foi contratempo para minha super-amiga-advogada; que pediu a senha do wi-fi do bar (que infelizmente foi concedida) trocou o aplicativo de facebook dela pelo meu e escolheu 4 ou 5 fotos em que ela julgava que eu estava ok para entrar no catálogo de pessoas. E lá estava eu. Tinha, oficialmente, um perfil no Tinder.

A partir daí iniciou-se uma nova via-sacra. Minha amiga, chacoalhando seu celular diante de mim, mostrando fotos e deslizando o dedo para a esquerda.

– Esse também não?

E assim repetidamente, passando por pessoas catalogadas de formas iguais. Homens héteros sem camisa, na academia, em fotos com um monte de gente igualmente querendo mostrar o quanto era hétero e o quanto tinha amigos héteros iguais a ele. Nas fotos com muitos amigos na praia, ou ostentando carros, nem dava pra saber qual era o dono do perfil, de tão parecido que todos eram nas fotos.

Em meio a isso tudo, depois de o aplicativo esgotar umas duas vezes o número de opções, e ignorando minhas súplicas e viradas de olhos para o que já se assemelhava a uma tortura, finalmente uma luz. Uma pessoa normal (para os meus parâmetros um tanto quanto tresloucados do que seja normal). Fotos de viagens… no sofá de friends! Ok, se aparecesse alguém que merecesse match seria essa pessoa.

Ilustração por Marco Melgrati

– Ok, nesse pode dar like.

Seguido da realização pessoal da minha amiga em deslizar para a direita.

E para minha surpresa, eu já tinha levado um match dessa pessoa (apesar do pouco tempo de aplicativo, acho que pessoas tresloucadas se encontram).

Até para os corações mais sólidos com a ideia de amores líquidos, não há como confessar que a sensação não tenha sido satisfatória.

Aberto o chat com as combinações recíprocas, vimos as imagens que queríamos na câmera, e finalmente estava liberada.

Dias depois, já com o celular em mãos, recebo ligações da amiga: Precisava baixar o Tinder. Ela mesma havia explicado minha situação ao rapaz, e eu não poderia “perder o contato”.

Confesso, novamente, que a expressão “perder o contato” com alguém que era potencialmente legal também teve seu peso. Baixei o Tinder, e… sem ninguém no controle, estava por mim mesma.

Se no início a fuga e a passividade me pareciam prejuízos nas relações sociais, romper relações quando elas não se dão “olhos nos olhos” sem dúvida se torna um evento bem menos traumático, que exige zero explicações.

No Tinder, caso alguém te desagrade, a tendência é a mais óbvia: apenas parar de falar com a pessoa. Você apenas “descombina” e pronto”.

Ilustração por Marco Melgrati

Você pode conversar com 5 pessoas de uma vez, e perceber que todos os 5 são pessoas as quais você não daria atenção se estivesse “olhos nos olhos”, se cruzasse na rua. Ainda assim pode ter passado a foto de uma pessoa que sentou do seu lado no ônibus, mas você não reparou porque estava olhando para o celular. Isso acentua o que Bauman costuma dizer, que as novas tecnologias levam as pessoas a conviverem “em solidão e em multidão ao mesmo tempo”.

O acordo inicial, seria um mês de Tinder antes de sair escrevendo sobre. Aguentei três semanas.

“Estamos todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo”. – Zyhmunt Bauman

Assim como tudo no terreno líquido, achei que deveria ser uma experiência transitória, e como conclusão, posso dizer que serviu para uma certa finalidade específica, de conter a solidão de quem participou da rede por alguns momentos.

Se esses momentos vão ou não alterar a vida dos membros que se permitem a experiência, deriva de caso a caso. Aliás, essa é uma outra grande sacada quanto ao aplicativo: o que pode dar mais errado, é cada pessoa esperar uma coisa da relação que se iniciou tecnologicamente, quando ela passar ao “olho no olho”.

Ao meu ver, essa pós-modernidade é o que Bauman costuma descrever como “desenlace dos indivíduos”.

A liquidez da rede evita, em tese, a comunidade duradoura. Mas, como disse um dos comentários em minha rede social: seja líquido, sólido, passageiro ou eterno… o que importa é o carpe diem. Aproveitar o momento, de preferência sem nenhuma expectativa, afinal, só de vez em quando você cruza com uma pessoa que tenha a mesma eletricidade que a sua. Que bom que isso possa acontecer também através da liquidez de uma rede social.

Advogada, feminista, tentando engajar a militância jurídica com o meio social. Atualmente estuda serviço social, e passa mal toda vez que alguém a chama de “assistencialista”. Acredita no serviço social não como uma forma de assistencialismo ou prática individual, mas sim como política pública que concretiza o direito ao acesso público da equidade.

2 Comentários para "Bauman & Tinder — O desenlace dos indivíduos na era da modernidade líquida"

  1. Fascinante a sua abordagem Letícia.
    Sou paulista, mas cidadã do mundo, tendo saído do Brasil há quase 20 anos. Esse fenômeno é mundial, independente de geografia, raça ou religião.
    Com 47 anos sou considerada dinossauro tecnológico pelos meus próprios filhos. Mas me recuso a ser escrava do Iphone. Amo a minha liberdade de deixar o telefone num canto e sentir “na real” o meu entorno, interagir olho no olho com as pessoas.
    Me identifiquei muito com a frase “estamos todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo” – genial Bauman!
    Um abraço

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