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O porco-espinho, Mona Achache, França, 2009

Sábado à noite em casa. A vontade de que um planeta azul pudesse se chocar contra a Terra, com certeza estava entre meus desejos mais fervorosos. Então, resolvi baixar um filme chamado Le Hérisson, ou, O porco-espinho, que em sua sinopse apresentava a história de uma menina que planejava se matar no dia de seu décimo segundo aniversário. Parecia bem inspirador.

Cinco minutos após o início do filme, encontrava-me apaixonado por Paloma, a menina, que justificava sua decisão diante de uma câmera que ela mesma filmava para seu documentário sobre seus últimos meses de vida. Descobrimos que ela é de uma família rica francesa, filha de um político e de uma maluca que conversa com as plantas e viciada em remédios. Existe, ainda, uma irmã, que não dá muita atenção à ela, como o resto da família, eis a revolta da menina. E eu resolvi que não queria que o mundo acabasse pela próxima uma hora e meia.

O filme é baseado no livro L’Élégance du hérisson da escritora Muriel Barbery (Quero ler). A história avança com a singular percepção filosófica de Paloma. Questões como a vida, a morte, a felicidade, a tristeza, dão um tom existencialista ao filme, mas sem cair em banalidades, tudo é tratado com respeito e delicadeza, principalmente quando Paloma entra na vida da síndica do prédio, Renée, uma mulher solitária que, quando não está resolvendo os problemas do prédio, vive com seu gato gordo, comendo chocolate e guardando sua biblioteca de livros. Eis o porco-espinho, que para Paloma é no exterior uma fortaleza, mas por dentro, refinada, solitária e terrivelmente elegante.

Se antes o filme se desenrolava pela falta de identidade com o meio em que as personagens viviam, a chegada de Kakuro Ozu, que jura não ser parente do diretor japonês Yasujiro Ozu, faz com a menina e a mulher se identifiquem, filosoficamente, quanto amorosamente com o homem, desenvolvendo nelas um confronto com suas convicções. E o elo inicial é Tolstói. Nada óbvio, nada fácil, as personagens enfrentam seus dilemas de forma profunda e conflituosa. A menina que vai se tornar mulher é pura contestação. A mulher que precisa redescobrir sua feminilidade é o terror de encontrar-se com a felicidade.

O porco-espinho é um filme que vale a pena porque ao mesmo tempo que pode divertir e fazer pensar, ele incomoda, como toda boa obra de arte deve ser, seja até pela beleza arrebatadora. Uma obra que faz carinho no espectador, não é de arte. Provavelmente o livro traz mais complexidade que o cinema não consegue transmitir, já que a autora é formada em Filosofia, o que justifica tantas ótimas referências no filme. E fica o gosto de um filme bonito e de um livro que deve ser mais bonito ainda.

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