“Tenho assistido, incógnito, ao desfalecimento gradual da minha vida, ao soçobro lento de tudo quanto quis ser.” (trecho 193)

Alguém disse uma vez que o Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, composto por seu heterônimo Bernardo Soares, o ajudante de guarda-livros de Lisboa, era o livro mais triste do mundo. Uma acusação injusta para a profundidade da consciência da realidade, de um homem perante o mundo mais ameaçador. Um livro fragmentado, sem histórias. A vida cotidiana que se passa por um estado físico, psíquico, intelectual, louvando a si mesmo como ser pensante, emotivo e solitário. Escrito em pedaços de textos muitas vezes magistrais, trabalhados com o “demônio” de Pessoa,  assumindo o caráter infindável de sua escrita.

Richard Zenith, organizador do livro pela Companhia das Letras, define o Livro do Desassossego:

“O que temos aqui não é um livro mas a sua subversão e negação, o livro em potência, o livro em plena ruína, o livro-sonho, o livro-desespero, o antilivro, além de qualquer literatura. O que temos nestas páginas é o gênio de Pessoa em seu auge.”

Diz-se que o Livro se aproxima de outro heterônimo de Pessoa, Álvaro de Campos, pela manifestação melancólica em que se dá a obra. Os fragmentos foram escritos até praticamente o final sua vida. No início, há quase 100 anos, ele tinha a ideia de escrever um livro, mas nunca foi capaz de organizá-lo como história, o que se lê é como um diário. Havia sim, ali, a imensidão de uma vida interior inapta para a vida exterior, a realidade como tédio constante, as impressões da querida Lisboa, o tempo e o espaço do coração que se dilacera nas páginas do Desassossego.

“O homem vulgar, por mais que dura lhe seja a vida, tem ao menos a felicidade de não a pensar. Viver a vida decorrentemente, exteriormente, como um gato ou um cão – assim fazem os homens gerais, e assim se deve viver a vida para que possa contar a satisfação do gato e do cão.”  (trecho 188)

A maioria das passagens do livro são desconcertantes para os menos avisados e que veem um tom pessimista naquelas frases de puro abatimento e cansaço. O que jorra ali é a total capacidade de sentir a realidade, e por senti-la, cai em sonhos.

“Estou quase convencido de que nunca estou desperto. Não sei se não sonho quando vivo, se não vivo quando sonho, ou se o sonho e a vida não são em mim coisas mistas, interseccionadas, de que meu ser consciente se forme por interpenetração” (trecho 285)

Um livro incômodo, contraditório, ambíguo, quase religioso, quase ateu, moderno e tradicional, escrito entre o sono e o despertar. O absurdo da vida levou diversos autores e filósofos a se debruçarem em questionamentos existencialistas no século passado. Talvez muitas dúvidas pudessem ter sido resolvidas se tivessem tido a oportunidade de ler o livro do ajudante de guarda-livros. Um livro visionário sem querer ser. O livro que nunca foi.

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