NYMPHOMANIAC, Lars Von Trier – um filme sem tesão

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Assisti no JK, com amigos, Nymphomaniac, de Lars Von Trier. O cinema cheio, na expectativa de uma excitação menos prosaica do que um filme pornô, dos xvideos da internet, e como eu esperava – conhecendo o diretor -, frustração.

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Lars não é bobo. E sabe o limite também do seu sadismo. Nada de ser demasiadamente hermético ou cabeça, a ponto de espantar o público (o que já está claro na escolha de um elenco mais americano e “famoso”). Quando Nymphomaniac part one chega ao fim, ele oferece em trechos clipados cenas mais apimentadas da parte 2, como se dissesse que tudo o que foi prometido no One, e não se cumpriu, será servido no Two. Não creio.

Nymphomaniac acompanha a trajetória de Joe. Após ser encontrada na rua, desfalecida e espancada, um bom samaritano (o judeu Seligman) a leva para própria casa (já que ela se nega a esperar pelo resgate policial). Diante de uma xícara de café, faz-se um confessionário/consultório psicanalítico em que ela descreve sua vida sempre tendo por foco seu despertar e furor sexual. Isto se faz, contudo, por exigência de Seligman, por meio de metáforas como a da pesca.

O filme segue a voz (às vezes off) de Joe, da infância esfregando-se no chão do banheiro com uma amiga, pedindo a um rapaz grosseiro (na adolescência) que a livre da virgindade, até o jogo que estabelece num trem com a amiga, de quem será capaz de transar com o número maior de desconhecidos para obter por prêmio alguns chocolates. Após tal experiência, tratará de sua adesão a uma seita (entre dionisíaca e satânica) de moças feministas que “usam” o sexo promiscuamente para se rebelarem contra a opressão da mulher e sua submissão ao “Amor”. Segue a desistência do curso de medicina, a proliferação de parceiros até o reencontro (ao procurar emprego) do rústico moço que a desvirginou, agora seu chefe, a quem ela se nega qualquer envolvimento. E o resto ficará para parte 2.

No diálogo que se estabelece, ela tentará provar ser uma mulher má enquanto seus atos – de gratuita busca por prazer – vão sendo “revistos” e analisados por Seligman que num discurso antimoralista, vai redimindo-a, destacando o valor positivo de tudo o que faz. Cenas clipadas de sexo com homens diversos seguem entremeadas com diálogos repletos de referências eruditas várias, ora filosofantes, ora analíticos, além de reminiscência à infância (ilustradas em flashbacks) sobre sua relação com um pai amoroso e uma mãe distante.

Ainda que os procedimentos de Lars Von Trier pareçam (pelo menos a mim) mais óbvios e menos significativos a cada filme, ao assistirmos seus filmes reconhecemos a mão do “autor”. Nymphomaniac segue com aquela velha misoginia de todos seus trabalhos, o enredo fabular, o tom pedagógico (com “vinhetas”/cartazes) subtitulando partes do que se assiste. O caráter (pretensioso) de autoanálise do que se oferece a ver (comentado pelos próprios personagens) e suas conexões com elementos de “alta cultura”, como etimologias, número Fibonacci, escalas musicais, psicanálise entediam e dificultam a aproximação empática com a personagem Joe. No seu excesso de autorreflexão (também, de como o próprio filme deve ser entendido), por meio dos longos diálogos, mostra claramente que a sacanagem insinuada em trailer e cartazes é isca para incautos.

Lars é um sádico, não só em relação às mulheres espancadas, estupradas e ultrajadas que encontramos em todos seus filmes, mas sádico na sua relação com o público. Para um filme que atiça expectativas sugerindo em seu marketing selvagem “putaria”, frustra o espectador pois neutraliza toda “excitação possível” ao explicitar a mecânica do ato, despi-lo de qualquer “sentido erótico e ou poético”, expondo-o como encontro carnal, troca de fluidos, visceral e humano. Sexo para Joe é fácil, rápido, banal, fricção e agito, no limite do mundano. Pobre público que pagou caro para ir ao IMEX ver atriz e ator naquele velhíssimo ato da penetração, pau e vagina e sai de lá broxado. Mas afinal, quem precisa do Lars para saber como se fazem os bebês?

Sexo vende, azeita o mecanismo do capital e do consumo mais que graxa. Sexo é o petróleo da indústria cultural. Mas há de reconhecer que Lars não o banaliza, sabe que a grande questão foi, será e segue sendo “SEXO” – princípio e fim de tudo.

Sexo é fim/objetivo central da existência adulta que o poder e o dinheiro compram para fins de gozo, e que os puros denominam “Amor”, ora por pudor/ingenuidade, ora por estupidez mesmo. Nimphomaniac vem dizer que o pacote (amor/sexo) não vem junto, e o buraco (que é mais embaixo) está na maior parte das vezes em cima, por trás dos orifícios dos olhos. Gozamos mais com a cabeça do que com a fricção. E o orgasmo pode camuflar dores complexas, dispersar, iludir, ser moeda de troca.

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A ninfomaníaca espancada que abre o filme não se deixa possuir. Goza mais ao falar de seu dilema moral (ela se diz uma pessoa má), num misto de culpa e orgulho, do que transando. Talvez por isso Seligman exige-lhe metáforas (sobre pescaria), tanto para impedir que o seduza (que é sua outra forma de gozo), como para tirar do banal aquele hábito de dar-se a rapidinhas com desconhecidos.

Narrar termina por ser mais excitante do que o sexo em si, já que a poupa da desordem que provoca dentro de Joe, em seus parteiros e naqueles que sofrem o efeito por tabela de sua compulsão (esposas traídas, por exemplo). Aliás, se algo paga o ingresso, é o desempenho delicioso de Uma Thurman, no fragmento que leva o nome de sua personagem – Mrs. H.: uma esposa histérica, patética, cruel, insana, personagem que rompe a monotonia do filme.

De um modo geral, na direção de Lars Von Trier percebe-se um tratamento mais elegante da imagem, dilatando tempos e crendo ser o silêncio instrumento de tensão. No plano do conteúdo, Lars segue sendo inegavelmente um autor moral. Filmar é sua metáfora preferida do ato de “pregar”, por isso faz continuamente uso de “alegorias” e/ou “parábolas” (pensemos em Dogville, Melancolia, Anticristo). É com alegorias que ilustra seu niilismo, sua descrença generalizada do homem, de Deus, no não-sentido de tudo.

A aniquilação e a morte estão no desfecho de todas suas obras, precedidas da vitória dos canalhas, dos traidores sem espaço para qualquer transcendência já que todo sentimento mais intenso é exposto ora como patético, ora como histeria. Já o que se crê “transgressor” e “polêmico” em Lars, nada deixa de ser que sua recorrente adesão ao grotesco: vísceras, sangue, urina, fezes, esperma, vômitos, humores expostos em profusão. Esse desejo de tirar o espectador de sua “letargia” por cenas chocantes, cruéis, violentas ou grotescas me parece um tanto primário.

Se há, contudo, algo a se reconhecer de positivo em Lars, é que nunca perde o foco de que SEXO é a grande questão. Sexualidade nunca é simples, gera polêmica, tabus, toca – duro – no sagrado, e é tão mais satisfatória quando menos se busca apreende-la intelectualmente.

Isto por que o instintivo e banal ato da cópula parece, quando exposto a cru (bem como seus “praticantes”), um ato sem Deus, gratuito, um rebaixamento que só é belo e poético entre os amantes cúmplices. Cúmplice, talvez seja o melhor termo, pois excetuando os envolvidos, a representação do sexo no cinema ocidental surge normalmente ou como uma explosão de tesão, normalmente provocado por uma transgressão cujo produto, será inevitavelmente, crime/violência. Estou falando de sexo em filmes para pessoas adultas, e não de comédia romântica, no qual o mundo irrompe toques em orquestras e violinos.

Num mundo cada vez mais infantilizado, nunca foi tão necessário pôr a nu o sexo, fora de edredons, descoisificá-lo. Não sei se frustrar o espectador, impedindo seu “gozo” seja a melhor solução. Nymphomaniac se apresenta quase como um antídoto à domesticação do desejo em fantasias banais de sex shops, reafirmando a impossibilidade de enquadrar e etiquetar comportamentos, práticas e fantasias sexuais.

Olhos operados, pêlos brancos que avançam, troca a noite pelo dia. Virou doutor na USP com 336 págs. sobre o sagrado em Guimarães Rosa. Filho-eterno de sua mãe; de seus irmãos, idem. Não gerou nem conquistou a sonhada independencia financeira. Cultiva amigos muito jovens. Tem amor por livros, filmes, arte. Ensina o assunto e faz filmes. Tem um blog REVIDE para falar de si e um pouco de tudo, como aqui, onde pousa no momento.

1 Comentário para "NYMPHOMANIAC, Lars Von Trier – um filme sem tesão"

  1. Gostei bastante de sua resenha. Mas algo me incomodou:
    você tentando esquadrinhar e racionalizar o discurso artístico, diria até inconsciente, de sua obra.

    “Esse desejo de tirar o espectador de sua “letargia” por cenas chocantes, cruéis, violentas ou grotescas me parece um tanto primário.”
    Não concordo com esse comentário pelo simples fato de não se criticar as ferramentas adotadas pelo artista, mas sim como elas foram utilizadas e em quais circunstâncias. Para mim, algumas cenas chocantes, foram exatamente aquelas mais cruas. Violência? Quem se choca com violência atualmente?

    “Pobre público que pagou caro para ir ao IMEX ver atriz e ator naquele velhíssimo ato da penetração, pau e vagina e sai de lá broxado”
    Essa parte é particularmente interessante, pois jamais pensei que iria me excitar vendo o filme. Na verdade, o trabalho gráfico empregado nos cartazes e demais mídias sempre me levou mentalmente ao lado oposto do que visualizava. Acredito que essa ideia de que o filme seria uma pornografia deliciosa intelectualizada, deve ser oriunda da redação de alguns, sobre os detalhes de sua produção antes do lançamento. Além do que, acredito que Lars não tenha muito interesse em fazer milhões com seus filmes. Mas brincar com seus espectadores e conflitar sentimentos (desde os cartazes) é uma atitude mais verossímil por parte dele.

    Enfim, gostaria de comentar mais mas meu tempo não me permite. Parabéns pelo texto!

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