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Em entrevista concedida para a websérie da SOUL ART, o grafiteiro Neguim nos guia pelas cores e formas de sua autoria em seu bairro

É difícil começar a escrever sobre momentos que transformam o seu olhar sobre uma coisa que você já tinha um conceito bem definido. Mais do que isso, parece que a entrevista com o grafiteiro Neguim (Léo Araújo) para o Papo de Visão trouxe a possibilidade de entender nuances bem mais profundas da essência da arte urbana. 

Neste texto me atrevo a transmitir parte dessas ideias por aqui. Mas você, caro leitor, tem a honra de poder assistir trechos inéditos dessa conversa produzida pela SOUL ART no Papo de Visão, dirigida por Gabriel Alexandre e mediada por Carol Farias

 

 

Vamos ao que interessa? Antes de mais nada, gostaria de trazer a afirmação mais polêmica proferida pelo artista para guiar nossa troca: a pixação é uma expressão genuinamente brasileira, com grande aderência em São Paulo, que cumpre seu papel artístico com maestria: transgredir. E transgredir com sangue, com suor e lágrimas. Entre uma multidão de cinza e pessoas com as mais diversas características, pixadores arriscam suas vidas em arranha-céus, pontes e telhados para verem e serem vistos, numa prática marginalizada inclusive por estudiosos da arte moderna.

É a necessidade pulsante de ser ouvido, de ser reconhecido. E também, por mais contraditório que seja, de respeitar. Neguim que o diga: o muro da escola que abriga sua primeira tag é parte da história dele e também de seus pares, registrados lado a lado em uma sinfonia caótica de tintas descascadas e “projetos pilotos” de grandes artistas da arte urbana atual. Cada uma com seu incontestável valor e cumprindo seu papel de inicialização. 

Mas ele não parou no pretinho básico. Neguim inundou a Jardim Alvorada com cores, macacos, gatos, corações e encanto. Passear pelo bairro em que o artista nasceu é poder vê-lo a cada esquina, em cada fase de sua trajetória artística, vibrando e dando vida a paredes mortas, descascadas e, literalmente, vendidas.

Venda essa que acontece ininterruptamente aos nossos olhos. Do M luminoso e amarelo que salta no horizonte anunciando o Mc Donalds às cores que escolhemos para colorir nossas casas. A visão de Neguim sobre esse tipo de intervenção é muito interessante: “se eu posso receber estímulos comerciais em todos os cantos que eu direciono meu olhar, porquê não posso invadir sua paisagem com a minha identidade?”

 

 

Neguim só quer ser visto

O garoto invisível, como ele mesmo se descreve, estava sempre ali no canto dele, pacífico e amigável. Neutro. Uma folha em branco, que com muito orgulho hoje desfila com roupas e dedos manchados de tinta. Orgulho que contagia.

A linguagem própria veio com o tempo e a maturidade artística, tornando possível que sonhos como o reconhecimento internacional e a sonhada vida através da arte pudessem se tornar realidade, não com muitos desafios e obstáculos. Que nos diga o advogado dele, um dos amigos mais próximos e antigos, que o esperava para andar de skate após nossa entrevista.

A vida de um artista de rua marginalizado rende muitas e boas histórias: uma dessas contada nessa tarde foi de quando a polícia interrompeu a produção de um mural e confiscou seu material de trabalho e do Gilberto Vargas. Um pedido de prisão em flagrante, um ano de processo, idas e vindas jurídicas e uma resposta: a arte venceu. E sem heroísmo fajuto ou frases de impacto para deixar a história bonita. O argumento que convenceu o juíz para inocentar a dupla de artistas urbanos foi baseada em dados, seriedade e compromisso com o bem-estar social. 

Se você como eu já parou para cotar o trabalho de um grafiteiro sério sabe do que estou falando. São obras de arte, muitas vezes inéditas, sob medida, cheias de personalidade. O esforço feito por artistas urbanos com objetivo de trazer à realidade de quem não acessa a arte “cult maneirinha” da Vila Madalena poderia, e deveria, ser considerado como investimento público, pago por muitas empresas também “cult maneirinhas” para rejuvenescer bares, hostels e baladas. Mas só vale quando é no centro… E, principalmente, quando a arte perde seu objetivo de transgredir. Argumento aceito, processo arquivado. Quase um ano depois, Neguim recuperou suas latas de spray coloridas (as pretas a polícia gastou. Curioso, não?!).

Transformando com aquilo que se tem de mais generoso: talento

Toda bagagem adquirida nos últimos anos fizeram com que os olhos de Neguim se virassem para quem realmente tem as respostas de perguntas complexas demais: as crianças. Entre seus próximos passos está a realização de oficinas de arte educação para os pequenos, fazendo junto, sujando de tinta e ensinando um conceito que para ele é bem claro: o respeito pelo seu espaço e o espaço do outro. 

Além disso, Neguim está há poucos passos do lançamento de sua grafite shop, a Essencia , uma galeria de serviços que permitirá a vários artistas urbanos da cena atual a possibilidade de vender seus serviços de forma mais comercial, possibilitando que cada vez mais artistas possam se desenvolver profissionalmente entre pincéis, tintas, sprays e paredes.

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