Diário de Pedradas – Cartola (1974)

Cartola

Discípulo de Cartola, Noite Ilustrada e Nelson Cavaquinho, sempre me causa estranhamento a associação imediata que é feita indevidamente entre o samba e a alegria, o carnaval, a dança, a mulata. Não porque não exista relação – o samba é sim tudo isso anteriormente citado. Mas porque não se trata apenas disso. As lágrimas cantadas por Cartola são uma das maiores expressões que eu conheço a respeito do lado triste da vida, os dias de chuva igualmente importantes, segundo Fernando Pessoa. O samba desses mestres é forte a ponto de consolar aqueles que se encontram no fundo do poço, transformando o sofrimento em algo belo – embora nada prazeroso. Não é qualquer um que faz isso.

Cartola

A própria vida de Cartola ilustra bem a dualidade na qual os grandes sambistas estão mergulhados. Em 1974 foi lançado seu primeiro disco, trazendo sucessos como Tive sim, Acontece, Alvorada, O Sol Nascerá, entre outros. Na época, Cartola já estava prestes a completar seus 66 anos. Após uma vida inteira de samba, noites felizes e manhãs tristes, o também fundador da Estação Primeira de Mangueira pôde desfrutar muito pouco do reconhecimento que veio tão tarde. Três álbuns depois, Cartola viria a falecer por complicações de um câncer, em 30 de novembro de 1980, aos 72 anos de idade. Mais de 20 anos depois, sua obra continua esquentando os corações de todos aqueles são de chorar vez ou outra, e dando esperança aos que pensam sofrerem sozinhos.


1. (0:00) Disfarça e Chora (Cartola / Dalmo Casteli)
2. (2:03) Sim (Cartola / Oswaldo Martins)
3. (5:42) Corra e Olhe o Céu (Cartola / Dalmo Casteli)
4. (9:07) Acontece (Cartola)
5. (10:25) Tive Sim (Cartola)
6. (12:35) O Sol Nascerá (Cartola / Elton Medeiros)
7. (14:12) Alvorada (Cartola / Carlos Cachaça / Hermínio Bello)
8. (16:51) Festa da Vinda (Cartola / Nuno Veloso)
9. (18:53) Quem Me Vê Sorrindo (Cartola / Carlos Cachaça)
10. (21:03) Amor Proibido (Cartola)
11. (23:38) Ordenes e Farei (Cartola / Aluizio Dias)
12. (26:00) Alegria (Cartola)

 

Por destino ou por não ser nenhum craque no futebol, começou a escrever desde cedo. Deitado em um dos gramados do Museu do Ipiranga, conheceu A Tábua de Esmeraldas e o violão de Jorge Ben, encontro que o motivou a imaginar um futuro onde ouviria discos e escreveria sobre eles. Antes de ingressar na faculdade de Jornalismo, foi obrigado a trocar as salas de Ciências Sociais pelas fileiras do Exército Brasileiro. Gosta de sofrer com o Palmeiras, filmes coreanos e os chiados de sua vitrola Polyvox.

4 Comentários para "Diário de Pedradas – Cartola (1974)"

  1. tem um video que o mc marechal manda: “A terra secou. O nome dessa musica é “espirito independente”, e fala justamente da terra, da música terem secado. As pessoas têm esquecido do verdadeiro fundamento de se fazer música, muitas vezes se igualaram aos padrões, começaram fazer algumas coisas que não tem sentido para arrumar dinheiro. Mas quando os caras começaram a fazer música, eles não faziam música por dinheiro.” Acontece que hoje, alegria, festa, mulata, dão lucro. Vamo fugi dos padrões negada.
    Arrebentou na materia, parabens.

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