O tema é puro melodrama. Garoto mandado pelo pai a um orfanato se revolta contra tudo e todos e o procura desesperadamente. No percurso, esbarra numa cabeleireira que aceita “adotá-lo” nos fins de semana. Se fosse um filme americano: longas conversas sobre sentimentos, abraços efusivos, eu-te-amo à exaustão, retorno do pai, redenção e constituição de uma nova família. Nada disso os irmãos Dardennes aceitam. Cada plano se volta contra a possibilidade do drama fácil. O menino é duro, agressivo, grosseiro, irrascível, mente sem piedade. Toda personalidade se traduz no seu modo de portar na bicicleta, movimentos bruscos, velozes, pura violência. E os diretores, Jean-Pierre e Luc Dardenne dirigem o filme com uma câmera tensa, com movimentos duros, para esse menino que parece fugir da câmera que o persegue. No plano da edição, ela se faz por retalhos, em cortes bruscos, tudo sem admitir trilha musical, canções. A cada canto do roteiro, esbarra-se no desamor, e tudo é ríspido, rascante; até mesmo a aceitação da cabeleireira e sua afetividade sem calor. A cada quadro um perigo para o menino indisciplinado, pequeno demônio de ingratidão a quem, quase, o abandono e a insensibilidade do pai parece merecimento. Sua tentativa de suprir a carência aderindo a um bandido local, põe a todos nós de sobreaviso. A sequencia de treinamento para o crime e a terrível queda da árvore — num espaço onde costumeiramente havia pregos e cacos de vidros — nos estarrece, pois de repente nós também somos ele.

No filme, tudo dói e nos emociona pela dureza dessa narrativa sem concessão para sentimentalismos. Tal secura de viver nos permite, raras vezes, perceber a força dos atores — por justamente parecerem não atuar, — com exceção de um único momento, no choro sentido de Cécile. Filme pequeno, forte, duro, ele nos arrebenta emocionalmente de um modo incomum. E torcemos no fim, e enfim, para que o garoto seja feliz.

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