– “Você não gosta da sua personalidade?”

– “Gosto, mas o problema não sou eu.”

E não é mesmo! Afinal, já dizia Sartre que “o inferno são os outros”, e o homem primeiro existe, pra depois se definir.

O diretor Daniel Ribeiro deixa essa ideia bem clara ao nos contar a história do jovem Leo, personagem principal de seu primeiro longa metragem, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014), baseado no curta metragem Eu Não Quero Voltar Sozinho (2010).

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As experiências e descobertas que já são aterrorizantes para a maioria dos adolescentes, são um desafio constante na vida do jovem Leo, pois além do problema de ainda não ter beijado ninguém, ele é cego desde que nasceu. O jeito de “ver” e viver a vida pode ser muito mais complicado para alguém que é cego, ainda mais com a superproteção dos pais e da aceitação dos colegas diante de uma condição que foi imposta por uma deficiência visual.

Nem por isso o filme de Ribeiro fica naquele estigma e no apelo para que o espectador tenha dózinha do Leonardo. O personagem muito bem incorporado pelo ator Guilherme Lobo, apaixona até os corações mais duros, pois é no humor e nas brincadeiras prontas que ele conquista e faz com que a deficiência de Leo seja a última coisa a se pensar.

Leo é um adolescente saudável que lida com sua cegueira dentro dos limites que a idade e a confiança impõem. Justamente pelo carinho e fidelidade que ele recebe da melhor amiga Giovana (Tess Amorim) vemos como coisas bobas e as reais preocupações jovens são comuns a qualquer tipo de adolescente.

As pequenas indagações como: “sou bonito?”, “sou desejável?”, “sou beijável?”, “será que fulano gosta de mim?” ou ainda “sou uma pessoa interessante?” são questões universais que atingem qualquer adolescente, seja ele cego ou não.

E por que não “gosto de meninos?” ou “gosto de meninas?”. Após a mídia expor tantas agressões a pessoas homossexuais e surgirem campanhas a favor do amor não importando forma e conteúdo, por que não discutir essa ideia das descobertas por um adolescente cego?

Isso mesmo, além de cego, Leo se sente apaixonado, não pela melhor amiga e sim pelo novo aluno que acabou de chegar à escola. Ao invés de assistir a história de um coração partido, passamos metade do filme rindo das piadas de Leo e soltando suspiros pelo jeitinho meigo e fofo de Gabriel (Fabio Audi), que conquistou todas as meninas do colégio é claro, e inclusive o nosso herói. O mais bonito de se ver é a naturalidade com que Gabriel lida com a deficiência de Leo. Mesmo que o jovem não possa ver o brilho dos olhos do novo amigo, sentimos aquele frisson dos primeiros amores e aquela felicidade instantânea só de pensar na ideia de que o outro está vindo.

O filme de Daniel Ribeiro recorda as primeiras experiências de quando a pessoa começa a se definir, a se encaixar, a procurar seu norte. É uma história sensível que faz lembrar de como um primeiro beijo pode ser um filme de terror, mas que todo mundo precisa passar, não importando a forma de amor.

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