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RGB_SOULART_TROMPETTE

Conto: Robson Alkmim | Ilustração: Filipe Rocha

 

Todos os jornais, rádios, telejornais, portais de notícias, não falam sobre outra coisa: a passagem conturbada do astro do jazz  J.J. Jr. pelo Brasil, que tem causado um pepino diplomático entre nós e o Canadá, terra natal do músico.

Como o polêmico fato deve ser analisado com seriedade jornalística para evitar erros e invenções desnecessárias, contaremos o que se passou aos nossos queridos leitores, baseados nos depoimentos que os presentes à fatídica festa deram à polícia.

Tudo começou com a festa de aniversário do deputado federal Feliciânus numa casa noturna às quatro da tarde de quarta-feira em São Paulo, patrocinada secretamente (e descoberta ontem por um de nossos repórteres) com verba de gabinete. O deputado já atochado de críticas sobre seus constantes impropérios dirigidos a uma parcela da sociedade, por meio de um vulgar medievalismo, foi a estrela cadente de sua própria comemoração. Esta, constituída por amigos e familiares com sorrisos, apertos de mãos calorosos e tapinhas nas costas maliciosos, que pagaram mil reais (por cabeça) ao aniversariante, com direito a se deliciarem com o saborosíssimo ovo de chocolate branco (produzido por uma de suas empresas) que, segundo o deputado, fará sucesso na próxima páscoa, pois “o branco é o verdadeiro ovo”.

Mas a atração principal não era paparicar o aniversariante, mas assistir ao grande show de J.J.Jr band, que viera especialmente do Canadá para o evento. O músico, que não sabia da fama do deputado, pois nem mesmo sabia quem o contratara para o show, trouxe também pessoas amigas, além dos outros três integrantes da banda.

Tudo ia bem. O lugar todo enfeitado com fotos enormes de Feliciânus, pessoas acomodadas em suas cadeiras de plástico, bebidas caras e comida francesa. O silêncio somente se quebrava pelos cochichos na plateia para elogiar as sublimes interpretações da J.J.Jr. band personificando Louis Armstrong, Chet Baker, Clifford Brown, Miles Davis, Dizzy Gillespie, entre tantos outros clássicos. Muitos aplausos!

Segundo testemunhas, Feliciânus que arrancara a gravata do paletó após “algo” que bebera, bastante animado, com estrelas rodando sobre a cabeça, gritava: “ai, que lindo tudo isso!”, e dançava ao fundo do salão, cercado por quatro seguranças ou assessores, todos loiros, altos e lindos (segundo algumas solteironas convidadas), em contraste com o porte tacanho e apertado do parlamentar. Mas a situação só pioraria.

O ponto alto e deprimente da festa aconteceu quando Feliciânus (fato negado veementemente por ele) viu uma moça negra sentada ao lado do palco, cercada pelo que seriam amigos, todos tranquilos apreciando ao show em sua mesa. Logo o deputado foi visto pulando quatro mesas, derrubando dez cadeiras, empurrando cinco pessoas, escorregando por duas vezes, numa delas quase se machucando ao se sentar sobre uma garrafa de cerveja deixada no chão que, para sorte (dele), o encaixe não foi preciso e ele continuou atravessando o salão gemendo e puxando a perna direita. Ao se aproximar da mesa da moça, gritou: “Mas de onde saiu essa coisa preta na minha festa? Seguranças tirem essa puta daqui! E esses aqui com você vaca, tudo bicha né?”. Feliciânus gesticulava frenético. Fato confirmado entre diversos presentes que ficaram aterrados com a frase.

O que o nosso famigerado deputado embriagado não sabia era que a moça, belíssima com seu vestido azul leve solto e cabeleira encaracolada que lhe dava um ar de marquesa, atendia pelo nome de Elisabeth, namorada de J.J.Jr., que via toda aquela cena do palco enquanto tocava.

Percebendo o que acontecia com a sua companheira, mesmo não conhecendo nada em português além de obrigado (coisa que realmente não lhe passou pela cabeça dizer no momento), J.J.Jr parou de tocar. A banda continuou durante alguns segundos mais, enquanto ele apontou o trompete para Feliciânus que puxava Elisabeth pelo braço, e berrou: “Get your hands off my woman, motherfucker!!!

O barbudo ruivo trompetista incorporou o que aprendeu com seu avô lenhador e, ao pular do palco para a pista, utilizou-se de seu trompete para acertar as costas de Feliciânus como se fosse um machado cortando um pinheiro. Mas o trompete partiu-se ao meio na primeira batida. Não sabia J.J.Jr. que deputado no Brasil tem costas largas e maciças; o jeito foi dar uma saraivada de catiripapos, sopapos e piparotes na cabeça de Feliciânus que gritava como uma jumenta açoitada.

Os seguranças do deputado não tiveram dúvidas em agredir o trompetista; a briga se generalizou. Senhoras apavoradas se agarravam sob as mesas enquanto ligavam para as amigas para contar sobre o “babado” que viam; senhores valentes querendo entrar na briga ainda segurando seus copos de uísque; crianças urravam incentivando a briga; os músicos, “shit!”, seguravam, “oh man!”, o companheiro, “fuck!” e tentavam controlar o ódio do canadense já salpicado do sangue vermelho rosado do deputado que jazia no chão desmaiado. “Son of a bitch!”

Logicamente, diversas fotos pararam na internet automaticamente, e o mundo conheceu rapidamente o que se passara na casa noturna em São Paulo no meio da tarde duma quarta até então normal.

“País violento! País de bárbaros! País atrasado! País de malucos!”. Estas e outras expressões pouco elogiosas ao nosso beautiful country foram disseminadas nos últimos dias especialmente pelos canadeneses, já que até o meio dia de hoje, sábado, J.J.Jr. está preso e dando autógrafos aos fãs (uns 158) que fazem protesto em frente ao 2º Distrito policial da cidade.

O governo canadense ameaça o governo brasileiro de retirar seu embaixador em Brasília caso J.J.Jr não seja liberado. As exportações para o Brasil de cloreto de potássio, de hulha betuminosa e vacina contra gripe estão cortados até uma resolução do caso. “Vamos morrer sem isso!”, dizem alguns especialistas em economia apocalíptica.

O deputado Feliciânus está internado num hospital, consciente e fazendo videos na cama para se defender das acusações de que ele não é digno para ser um homem público. Até mesmo tentou chorar, segundo testemunhas, utilizando-se de colírio, justificando que seus olhos ardiam de emoção pela humilhação e perseguição sofrida.

Elisabeth, que nem é canadense, brasileira ou deputada, mas nigeriana, disse na delegacia que foi ela quem deu o soco em legítima defesa nas partes íntimas de Feliciânus antes do desmaio parlamentar, talvez para aliviar uma possível pena de J.J.Jr e reaver seu amor o mais rápido possível. Para amigos que não guardam segredos, ela revelou, de que não sentiu absolutamente nada quando acertou o deputado. “He seemed a woman!”, confessou corando o rosto bonito, e para nossa sorte, intocado.

Mas a história caminha para uma resolução sem qualquer punição: o deputado Feliciânus parece ter sido aconselhado por consultores e pela própria mãe, dona Feliciânus, a retirar a acusação, pois o músico, conhecido no mundo todo por sua respeitabilidade e brilhantismo, poderia trazer desgraça às futuras eleições federais no próximo ano pelo nível de rejeição que alcançou o caso na sociedade brasileira.

Ainda hoje há uma apresentação da J.J.Jr. band, com exclusividade para uma platinada emissora de TV, no telhado da delegacia para delírio dos, agora, 234 fãs que se amontoam na rua sentados em cadeiras de plástico, tomando drinks variados patrocinados por uma marca de uísque, que é de conhecimento de todos, empresa do deputado Feliciânus. Quem sabe ele aparece?

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