Como é ser ansioso e o que você pode fazer para ajudar

My Anxious Heart por Katie Joy Crawford

Ter ansiedade é sentir como se a qualquer momento uma coisa terrível fosse acontecer e que você, de alguma maneira, será totalmente responsável por isso. Passa um arrepio frio pelo corpo, o estômago pesa. Não são borboletas farfalhantes, são mariposas grandes que às vezes te impedem de comer ou te causam dores, a ponto de você passar mal.

A certeza da tragédia premeditada se confunde com intuição, então por mais que seja absurdo, faz todo sentido na sua cabeça. Parece instinto. De vez em quando você não tem a menor ideia do que causará o terremoto e isso te faz vasculhar nos arquivos da memória todas as conversas, atitudes, prazos, pessoas. Tudo tem potencial, tudo é perigoso.

O pior, na verdade, é quando esses sentimentos são tão intensos que te impedem de fazer o que precisa ser feito. Aquele trabalho da faculdade, tão simples, que você adia até perder o prazo porque acredita que jamais será capaz de fazê-lo. Precisar desesperadamente de um emprego e não conseguir mandar currículos, por saber que eles não serão lidos, mas principalmente porque você não terá capacidade de ocupar a vaga. Conversar com alguém é quase uma tortura, cada palavra sendo medida e pesada.

My Anxious Heart por Katie Joy Crawford

O resultado disso, na prática, é uma mente exausta.

Você começa todos os dias ansioso por todas as atividades, tentando adivinhar se conseguirá executá-las; termina exausto por como foi difícil dar cada passo; deita com medo de como será o dia seguinte.

Aos poucos, seu círculo social diminui, porque pouquíssimas pessoas compreendem que seu nervosismo não é opcional e não é divertido. Poucas pessoas entendem como aquilo dolorosamente te rasga ao meio todos os dias. Você evita sair porque, na sua cabeça, não vai ser bom. Você consegue até ver que, na verdade, vai ser péssimo. E fica em casa ansioso prevendo algo ainda pior: não sobrará ninguém.

Essa é, talvez, a parte mais difícil de lidar. A escalada da ansiedade te leva, de fato, para o lugar que todos nós tememos, em segredo ou não – a solidão. Não falo da solitude e o prazer indescritível de ser a sua melhor companhia, mas de não poder fazer essa escolha.

É difícil acolher um ansioso, porque se o problema estiver em um grau alto, provavelmente seus conselhos não surtirão efeito. “Se acalma, vai ficar tudo bem”, zero efetividade. Faz um pouco até, depois passa e se perde em todas as noias. Algumas inseguranças, de fora, parecem quase piada de tão loucas, mas não duvide: tudo é muito real dentro desse universo doente.

My Anxious Heart por Katie Joy Crawford

Eu, como ansiosa, quero dar um conselho a quem não é: se tem alguém que você se importa nessa condição, não precisa pensar em frases de efeito e soluções, só esteja lá.

Mostre com paciência a realidade dos fatos, os 50% que podem dar certo de qualquer coisa. A vaga de emprego pode não rolar, o rolê pode acabar sendo uma merda mesmo, mas eu tô com você. Aquela conversa pode não levar a nada, aquele trabalho da faculdade pode não ficar como você gostaria, mas tudo bem, eu tô aqui, posso te ouvir. Mostre que você se importa. Segure a mão e lembre a pessoa de respirar – literalmente. E mais que isso: estimule a pessoa a procurar ajuda profissional. Se informe sobre isso, mostre caminhos, acompanhe.

Te digo também que você não tem obrigação de nada e pode abandonar esse barco, porque ele tá afundando e você terá que tirar uma ou duas canequinhas de água dele, talvez todos os dias. É difícil, eu sei que é. Então simplesmente não finja, não pergunte se está tudo bem se não quiser saber, não se disponha a estar presente se não puder estar, não diga coisas vazias como “estou aqui se precisar conversar”, porque a pessoa pode não conseguir tomar essa atitude. Fale e pergunte você, se tiver interesse. Se não, fique na sua. Honestidade e só. Mas saiba também que, quando essa pessoa estiver bem, talvez ela não queira mais a sua companhia.

Reprodução Pinterest

É o ciclo da vida. Chegadas e partidas.

Continuemos a nadar.

P.s.: Não tenho a intenção de falar por todos os ansiosos e portadores de TAG (Transtorno de Ansiedade Generalizada). Os sintomas podem ser muito diferentes de uma pessoa para outra e depende também de qual o grau de ansiedade do indivíduo. Aquele frio na barriga antes de ver quem você gosta ou de ir à praia é uma delícia. Pensar e até mesmo desistir de compromissos por ter a sensação de que vai morrer é bem diferente – e é para este problema que vem sendo tão debatido que chamo atenção.

Não sabe falar sobre si na terceira pessoa. Sou da quebrada, sou do mundo e sou minha. Trampo com marketing digital e mídias sociais. Formada em jornalismo, fiz um documentário chamado “No Submundo do Verso”, sobre pessoas com realidades semelhantes às músicas do Racionais MC’s, pra mostrar que o meio acadêmico deve respeito à cultura da periferia. Escrevo. Por ser mulher, resisto. Conto histórias, faço registros. E é só por haver arte que [ainda] existo.

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