Meus pais viveram sua juventude entre os anos 70 e 80. Por isso, as histórias de movimentos e eventos que mexeram com a população não faltam. De fato, o povo se jogou nas ruas durante essas décadas. Já eu, fruto dos anos 90 e 00, nunca pude dizer o mesmo da minha geração. Até hoje.
Hoje (21/10), a minha geração juntou maloqueiros, bixas (essa palavra mesmo, porque é assim que chamo meus melhores amigos), playboys, travestis, skatistas, negros, brancos, amarelos, nordestinos, paulistanos e estrangeiros em uma praça pública, em paz. Segundo a prefeitura, que não teve participação nem envolvimento com o evento (Kassab tentou impedi-lo) organizado por coletivos, colaboradores e pelo próprio público, Existe Amor em SP reuniu duas mil pessoas – a sensação era de muito mais do que as 30 mil pessoas que estiveram presentes no bem patrocinado festival Planeta Terra – cantando e dançando ao som de Thiago Pethit, Karina Bhur, Gaby Amarantos, Emicida e o aguardado Criolo.
Nas vésperas do primeiro turno das eleições para prefeito de São Paulo, na mesma praça, a minha geração contribuiu para que Russomano não passasse para o segundo turno. Desta vez, as duas mil pessoas mandaram Kassab, Serra e até Haddad se foder. Não. A minha geração não é revoltada e mal-educada. Ela está saturada, cansada e indignada. A minha geração não quer nenhum deles no poder, ela é nula. A minha geração é apartidária assim como foi o espetáculo – sim, espetáculo – desta tarde.

Thiago, Karina, Gaby entre outros animaram o público, mas Emicida e Criolo uniram a plateia em um único grito, um único choro entalado na garganta da minha geração: “Pátria amada, o que oferece aos teus filhos sofridos? Dignidade ou jazigos?”.

Eu, como repórter, só posso dizer que o evento superou as expectativas dos organizadores e emocionou o público. Eu, como telespectadora e parte desta geração, devo dizer: obrigada pelo gole de vida. Quando tem mais?

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