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Prefácio da edição revista e ampliada: humilhar gente pobre em rede nacional é o sonho de milhões de brasileiros. Não foi à toa nosso recorde de vendas na primeira edição, mas o resultado de um trabalho duro e necessário, explicando de um jeito simples as boas maneiras para exercer tão nobre função em concessões públicas, ainda que pouca gente entenda esse conceito.

Nesta edição revista e ampliada, atualizei termos e conceitos para deixá-los ainda mais palatáveis para o leitor médio, que pouco lê pouco e prefere passar mais tempo em frente às telas planas com mais de 40 polegadas. O manual dispõe de poucas páginas e algumas ilustrações explicativas para não espantar fregueses.

No primeiro capítulo, exploro a ajuda financeira aos moradores dos rincões mais distantes do Brasil — mas não exploro tanto quanto os bons apresentadores, só para deixar claro. Você vai aprender técnicas eficazes para gastar horas de um programa popular expondo mazelas de gente desdentada e barriga vazia. Em determinado momento, o leitor haverá de se perguntar: não bastava ajudar o moço sofrido ou a senhora desgraçada pela vida?

O pulo do gato virá com a constatação por A + B que, para fazer render os pesados investimentos dos patrocinadores, é preciso ensinar a pescar, não apenas dar o peixe espinhoso ao faminto. Com provas degradantes, fantasias esdrúxulas e danças estapafúrdias como prenda, ou mesmo a mera contação de histórias mais que tristes, o final feliz com o desavisado levando um cheque gigante (no sentido físico do papel) com uma quantia financeira que não faz cócegas ao animador de auditório, mas comove o público e levanta a audiência.

Por falar em comoção, o capítulo sobre lágrimas é fundamental. Nada como um pobre chorando para prender outros pobres à frente da TV por horas e horas. Chorando também, se possível. A busca pela lágrima precisa ser constante, de preferência com um suposto final feliz. Que nunca é final, e nunca é feliz. Nada de muita felicidade, é preciso algum drama. Doenças terminais e supostas histórias de superação sempre funcionam.

Há um capítulo extenso sobre sangue. Apresentados a várias fórmulas, o leitor sairá um expert em programas vespertinos com desgraças, enchentes, assassinatos e estupros, até esgotar a exploração à ralé da sociedade. Também é possível tirar mais um pouquinho dessa gente com aquelas atrações em que agentes policiais são protagonistas, abordando, acusando, condenando e até legislando. O uso de vídeos com trilhas engraçadinhas e legendas amarelinhas para ridicularizar o pobre filmado é uma dica importantíssima.

Este manual não é uma Bíblia da exploração do pobre em meios televisivos. É sempre possível uma atualização anual, mensal, semanal, de acordo com a evolução do ser-humano-midiático. Outros tópicos abordados neste manual:

  1. Uso de linguagem rebuscada no noticiário para confundir o pobre sem escolaridade;
  2. Boas maneiras de fazer acusações criminais contra pobres pelo fato de serem pobres;
  3. Piadas divertidas para ridicularizar o costume dos pobres;
  4. Ocultação da palavra pobre em atrações voltadas aos pobres.

Há muito o que aprender, caro leitor, cara leitora!

Espero que aproveite e as próximas páginas sejam como uma hipnose diante de uma televisão tela plana, de 40 polegadas. E que ela nunca sirva como um espelho.

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