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Entre poesias e pinturas, hoje Arnaldo Baptista vive com mais serenidade com sua companheira Lucinha Barbosa em seu sítio em Juíz de Fora, Minas Gerais. O ambiente tranquilo lhe permite viver em harmonia com arte e com a natureza, elementos que se fundiram com sua própria essência. Isto é refletido no modo como fala, humilde e lentamente, sobre sua facilidade em fazer amizade com crianças, idosos e animais, e quando relembra acontecimentos que marcaram sua vida, como a formação dos Mutantes.

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“Pode ser que comparem a gente com Beatles e Rolling Stones, (…) mas eles não tinham mulher no conjunto, o que dava um lado circense. A Rita trazia um lado de roupas e instrumentos malucos, e era interessante esse lado colorido…”. Arnaldo formou a banda Os Mutantes com seu irmão Sérgio Dias e sua ex-mulher Rita Lee no ano de 1966, em São Paulo. Porém, a banda só foi projetada para o sucesso no ano seguinte, quando acompanhou Gilberto Gil no III Festival de MPB da TV Record com a música Domingo no Parque, que ganhou os arranjos do maestro Rogério Duprat.

Foi uma época de efervecência cultural no Brasil. A música era valorizada nos festivais e nascia o Tropicalismo, um dos movimentos culturais mais importantes do país que influenciou a música e o comportamento social para sempre. E os Mutantes tiveram participação decisiva neste processo. Para o maestro Duprat, a banda foi “a coisa mais importante do tropicalismo”, e Arnaldo era quem comandava isso tudo, como sintetiza: “Acho que o Arnaldo Baptista é o responsável por quase tudo que aconteceu no Brasil de 67 para frente”.

O trio paulistano proporcionou inteligência ao rock brasileiro ao conferir uma identidade nacional ao som que era feito na cena internacional, tudo isso com alegria e irreverência, o que os diferenciava das outras bandas que apenas copiavam o rock de fora. Segundo o jornalista Nelson Mota, o trunfo de Arnaldo e dos Mutantes foi trazer liberdade e irreverência para a música, principalmente numa época de ditadura militar.

Contudo, a companheira de Arnaldo Baptista, Lucinha, afirma que um dos motivos que levou o casal a se mudar para o sítio em Juíz de Fora, há muitas décadas, foram as lembranças muitas vezes indesejadas. Já conhecida no exterior, em 1970, a banda faz uma turnê pela Europa. Foi nessa época que o artista plástico Toninho Petcov (que fez a capa da banda O’Seis, conjunto do início da carreira de Arnaldo) partiu de Londres para encontrar os Mutantes em Paris e os apresentou ao LSD (Dietilamina de Ácido Lisérgico).

Para Liminha, então baixista dos Mutantes, o envolvimento com as drogas “foi o início do fim”. A irreverência da banda foi substituída por extrema seriedade, principalmente por parte de Arnaldo, o consumidor mais frequente do ácido. Agora havia uma preocupação absurda em modificar o mundo com suas canções e o som ia se tornando cada vez mais progressivo.

Foi nessa época que Rita Lee saiu do grupo. Não se sabe ao certo se foi porque ela era incompatível com o tipo de som que a banda estava levando ou se foi devido ao término de seu relacionamento com Arnaldo, o fato é que a saída de Rita precipitou o que parecia irremediável: o término do grupo. Abatido pela separação de Rita, pelas drogas e principalmente pelo sentimento de desamparo, Arnaldo Baptista entrou em uma forte depressão. Assim, com a originalidade e inocência da banda perdidas, Arnaldo também deixou os Mutantes.

Ainda muito deprimido e desacreditado devido a seu estado emocional, o cantor  recebeu um sim do produtor Roberto Menescal, que topou gravar um disco solo de Arnaldo, intitulado Lóki, em 1974. Para muitos, este álbum é um dos mais clássicos e importantes do rock brasileiro. Nele, Arnaldo produz canções totalmente confessionais, que falam de sua separação com Rita, sobre a loucura, a dor, e reflete seu estado emocional.

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O cantor também tentou se recompor unindo-se a outras bandas, como a Patrulha do Espaço, mas nada teve tanta expressão quanto os Mutantes. Morou um ano no Rio de Janeiro, onde realizou a direção musical do espetáculo teatral Heliogábalo, em 1981. Relatos de atores da peça revelam um Arnaldo Baptista ora animado, quando instintivamente parava de tocar algum instrumento para dançar com o grupo; ora absolutamente ausente, como se apenas seu corpo estivesse ali.

Internado pela quinta vez num hospício, o músico cometeu uma tentativa de suicídio ao se jogar pela janela do quarto andar do Hospital do Servidor Público, em São Paulo. Era o primeiro dia de 1982, um dia após o aniversário de Rita Lee. Foi a oportunidade para sua redenção. Depois deste episódio, Arnaldo deixou para trás todas as coisas ruins de seu passado. Quem o ajudou muito em sua recuperação foi uma fã que frequentava diariamente a unidade intensiva na qual estava internado, mesmo quando os parentes foram se afastando com o tempo. Esta fã se tornaria sua atual mulher, quem hoje o conforta enquanto passeiam pelo sítio, onde podem analisar com mais calma os acontecimentos do passado intenso.

Ao assistir um depoimento de Kurt Cobain na televisão, relembram do recomeço artístico. Durante a passagem do Nirvana pelo Rock in Rio, nos anos 90, Kurt Cobain expressou sua admiração por Arnaldo Baptista, e isso despertou o interesse do público brasileiro, que o tirou dos anos de quase anonimato. Outra personalidade que reconheceu o talento do músico foi Sean Lennon, com quem tocou no Free Jazz Festival em 2000.

Inspirado pelos recentes reconhecimentos, em 2004 Arnaldo gravou mais um ótimo disco solo, Let It Bed. Já em 2006, um acontecimento: Os Mutantes retornam aos palcos. Convidados para tocar em Londres devido a uma exposição sobre o Tropicalismo, a banda se apresentou diante de um Banbican Theatre lotado. A formação não era original, Zélia Duncan substituía Rita Lee. Isso não impediu que público visse uma apresentação vibrante e aplaudisse em pé, emocionados com o espetáculo.

Porém, a maior prova de amor ao grupo aconteceu no dia 25 de janeiro 2007, no retorno dos Mutantes ao Brasil. Na frente do Museu do Ipiranga, 80 mil pessoas reconheceram a importância e se esbaldaram com uma das bandas mais importantes do Brasil. 80 mil pessoas gritaram repetidamente o nome de Arnaldo: a resposta foi um uivo visceral ao microfone.

Prova do bem que é feito pelo espaço e reconhecimento dado ao artista, hoje Arnaldo Baptista segue em plena atividade. Agora com mais experiência e em paz consigo mesmo, em seu sítio Arnaldo se conecta às mídias sociais e desenvolve inúmeros projetos. Um deles é o trabalho como artista plástico que começou após sua recuperação e desenvolve há mais de 30 anos. Em março de 2012 apresentou sua primeira mostra individual na Galeria Emma Thomas, em São Paulo.

Outro projeto é seu show Sarau o Benedito?, que apresentou na Virada Cultural paulistana de 2012 e segue lotando casas de show em São Paulo. O próximo espetáculo está marcado para o dia 29 deste mês, no SESC Vila Mariana. Ele também está para lançar mais um disco solo, intitulado Esphera, onde continua a compor músicas inspiradas e originais, sobre temas como vegetarianismo e aquecimento solar. “Mas louco é quem me diz que não é feliz”.

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Entrevistas: Documentário Loki – Arnaldo Baptista (2008), Paulo Henrique Fontenelle

Foto:  Mariana Vianna/Divulgação

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