Em entrevista concedida no último dia 25 de setembro de 2018, na Câmara dos Vereadores de São Paulo, o Vereador e, à época, candidato a Deputado Federal pelo Partido Verde, Gilberto Tanos Natalini, 66, promove reflexão sobre os possíveis resquícios da Ditadura Civil Militar brasileira.

Preso e torturado 17 vezes durante o período ditatorial, Natalini relembra, há exatos 43 anos da morte do jornalista Vladimir Herzog, as práticas do fantasma do General Carlos Alberto Brilhante Ustra e faz duras críticas ao Partido dos Trabalhadores. 

— Foto: Yuri De Lucca Dinalli

SOUL ART: Você fala abertamente, inclusive no livro “Na Luta”, a respeito das angústias que sofreu durante o período militar. Para iniciarmos, gostaria de ter um panorama geral daquela época, através do seu olhar. 

GILBERTO NATALINI: Eu era muito jovem. Em 64, quando teve o golpe, eu fui imediatamente preso pelas minhas convicções. Eu era muito ativo e logo me coloquei como opositor ao Regime Militar. Isso ainda na época de colégio, depois entrei na faculdade, em 70, na Escola Paulista, onde organizamos um grupo de resistência à Ditadura. A gente ajudava presos e perseguidos políticos com remédios, consultas, enfim. Reorganizamos o Centro Acadêmico… Eu fui, durante a Ditadura, 17 vezes preso por minha militância política no movimento estudantil. Mesmo depois do movimento estudantil, no movimento popular, como médico, também fui diversas vezes preso. E a primeira prisão foi em 72, eu tinha 19 anos e fui preso no DOI-CODI; fui muito torturado pelo Coronel Ustra e pela equipe dele, mas, por ele, pessoalmente. Eu sofro de disfunção de audição nos dois ouvidos por causa de choque elétrico. Então, eu vivi na carne o efeito da Ditadura, a repressão violenta, física e mental; minha família também sofreu com isso, e também teve gente da minha família que, por tabela, foi levada pra lá, tios, tias, primas… ficou uma marca muito profunda em mim de terror, né, de horror, desse tipo de atitude de um governo, um regime antidemocrático, um regime onde a perseguição política, a prisão e a tortura viraram rotina de estado. É claro que isso influiu muito na vida brasileira; sempre fica uma marca que demora décadas pra ser digerida pela sociedade, e eu acho que até hoje nós temos consequências graves dos governos da Ditadura Militar, consequências políticas, sociais e também econômicas. Agora, é claro que os problemas que nós enfrentamos hoje no Brasil não são exclusivamente devidos ao Regime Militar.

SA: Após 54 anos do golpe militar, você acredita que ainda vivemos algumas sombras deste período?

GN: O Brasil teve a oportunidade de reconstruir a sua democracia. A Constituição de 88 foi muito progressista, até protecionista demais no que diz respeito aos direitos sociais, mas foi importante, pois foi um efeito rebote ao que a Ditadura fez. Infelizmente os grupos políticos que assumiram o Pós-Ditadura no Brasil, em primeiro lugar o PT, que quebrou a ética, chafurdaram na bandidagem, na corrupção, e transformaram nosso país numa lambança desacreditada pela grande massa. Nós não alcançamos o patamar de justiça social que poderíamos ter alcançado. O Brasil é um país hoje de joelhos diante do capital financeiro. Sem autonomia, sem tecnologia de ponta, tudo o que a gente faz é importado, e na verdade, no fundo, no fundo, o país se transformou numa grande fazenda exportadora de boi e soja. Isso me dá muita angústia, muita indignação, até de certa forma revolta, pela oportunidade que foi perdida no Brasil. Eu sempre combati isso, desde a redemocratização. Então, eu acho que não é o final da história, mas esse meio de campo que nós estamos vivendo me faz pensar se valeu a pena quase ter perdido a vida na luta contra a Ditadura pra ganhar a democracia. A resposta é: Sim, valeu a pena. Eu tenho essa convicção, mas as vezes me bate um remorso de pensar como é que nós permitimos que o Brasil tomasse esse rumo na construção da democracia.

— Foto: Yuri De Lucca Dinalli

SA: Há, ainda hoje, uma pequena – ou não tão pequena assim – parcela da população que se mostra saudosista com relação ao período militar brasileiro. Apesar deste período ter sido classificado como uma Ditadura e ser repreendido por diversos setores, porque o senhor acha que essas pessoas clamam pela volta dos militares no poder?

GN: A Direita sempre existiu e sempre vai existir. Esse pensamento conservador e tal. Na verdade é assim: A “esquerda” brasileira — que eu coloco entre aspas, por que o PT, na minha opinião, não é esquerda, é um arremedo de esquerda, mas que no fundo tem uma prática extremamente de direita — fez tanta safadeza, tanta lambança, errou tanto, prometeu ao povo o céu e entregou o purgatório infernizado, que deu margem pra que esses grupos que são saudosos à Ditadura, tanto os mal intencionados, quanto gente mais nova que nem sabe muito bem como foi aquilo, se unissem em propostas conversadoras e saudosistas do tempo do regime militar. Quando eu conto pras pessoas o que o Ustra fez comigo, por que eu não voto no Bolsonaro, aliás, eu não voto nem no Haddad e nem no Bolsonaro… Enfim, quando eu conto isso, mesmo para as pessoas mais conservadoras, elas param e pensam. Em sã consciência, um homem que defende um regime de tortura, ele não é bom da cabeça. O fascista fanático ele é louco. Ele não é normal. Como é que você vai defender um ser humano amarrar o outro? Prender o outro e bater até matar. É como disse o Dom Paulo ao Ustra, quando foi lá salvar a gente: “Volte pra raça humana.”. Então, quem defende a Ditadura, não sabe o que está falando. Mas, enfim, existiu e existe isso porque a esquerda brasileira, capitaneada pelo PT, fez tanta safadeza que abriu o caminho para esses grupos se reorganizarem. 

“A responsabilidade disso é do Lula, do PT e dos grupos que estão em volta.”

SA: Há formas de combater este tipo de pensamento, de modo que ele não mais seja colocado em pauta? Quais são essas formas?

GN: É só você reunir um grupo — algo que não estamos conseguindo fazer hoje, pois cada um foi ser candidato da sua parte, dividiu-se todo o bom senso brasileiro, sendo pulverizado em várias candidaturas — e reconstruir o processo, reconstruir uma proposta de país que não seja nem a loucura pseudo-revolucionária do Lula/Haddad e nem a loucura troglodita e torturadora do Bolsonaro. Ou seja, no meio disso, ter um conjunto de ideias que defendam a democracia, que defendam a justiça social, o desenvolvimento sustentável, a participação popular, combatam a homofobia, combatam a violência contra a mulher, combatam esse armamentismo que o Brasil entrou, combatam o crime organizado… essa proposta de centro combate o fato do Brasil, economicamente, estar na mão de quatro bancos, estar na mão de um oligopólio do sistema financeiro onde 8 homens detêm a riqueza de 100 milhões de patrícios nossos. Nenhum país sobrevive assim. Ou seja, o centro democrático que deveria fazer a proposta se dividiu. A grande tarefa de reorganização no país é essa tarefa de realinhar as forças que são democráticas, que defendem a ética na política e defendem o desenvolvimento sustentável no Brasil. Como foi tarefa nossa na Ditadura, mobilizando a nação pra derrubar o arbítrio, a tarefa hoje é mobilizar a nação pra sair desses dois polos ridículos, e formar um meio. O “rouba mas faz” não pode voltar. Tem que ter alguém que faça sem roubar. Eu acho que é possível isolar essas coisas.

— Foto: Yuri De Lucca Dinalli

SA: Não podemos deixar de citar, dentro deste contexto, a figura do Bolsonaro, que representa a maior parcela de intenção de votos. Como uma figura dessa, que defende práticas recrudescedoras, ganha tanta força?

GN: O Bolsonaro é uma figura menor da história do Brasil. Nunca foi nada. Ele ficou no Congresso 7 mandatos e não tem nada que ele fez a não ser defender o autoritarismo e a figura do Carlos Alberto Brilhante Ustra, que é um assassino, é uma monstruosidade da natureza. Esse é o Bolsonaro. Ele é um nulo. O que é que ele soube fazer? Ele soube capitalizar pra ele as ideias conservadoras daqueles que defendem o conservadorismo do ponto de vista ideológico e, além disso, ele capitou um grande número de brasileiros absolutamente indignados, insatisfeitos e revoltados com a postura do PT. Ele teve essa capacidade. Então, por isso, ele é humanamente menor. Tá entendendo? É uma figura politicamente também muito pequena. A única coisa que ele soube fazer foi isso: Capitalizar os ideologicamente de direita, que são revividos pelo PT, e um grupo grande de brasileiros que vieram por absoluta indignação. Ele é depositário disso. Uma figura completamente pernosca. Só dele admirar um torturador com o Ustra, pra mim ele não tem valor nenhum.

“O Bolsonaro é uma figura menor. Ele defende práticas e condutas que, do ponto de vista do humanismo, são absolutamente inaceitáveis.”

— Foto: Yuri De Lucca Dinalli

SA: Você foi vice e presidente da Comissão da Verdade. É seguro dizer que todos os casos e inquéritos foram liquidados, ou há arestas a serem aparadas? E ainda: Vocês receberam mais apoio ou mais impedimento dos órgãos militares?

GN: Não! Nada foi liquidado. O que nós fizemos foi levantar o lençol e mostrar o que tinha embaixo. Por exemplo, o caso Juscelino: Nós praticamente provamos que o Juscelino foi assassinado. Aí os militares foram em cima e desmentiram o nosso relatório. Mas eu tenho absoluta certeza de que ele foi morto. Nós conseguimos mostrar a verdade. Esse era o objetivo. Nós aprofundamos muito o debate na nossa comissão. É só ler o livro! Então, quer dizer, resolver os casos, não. A gente apontou. Tá tudo provado no livro. Nós não fechamos nenhum caso. Nós apontamos os caminhos, todos com provas muito bem feitas. Trabalhamos muito! O livro mostra coisas que a gente só ouvia falar. Os órgãos militares ficaram muito bravos com a gente. Eu recebi diversas ameaças. Bati boca com o pessoal do Ustra e com ele, pessoalmente, em Brasília. Mas nós seguimos. Eu não fui radical com ninguém. Ouvimos todos os lados e fomos costurando a verdade. Saímos bem e vivos, o que é importante.

— Foto: Yuri De Lucca Dinalli

SA: Essas eleições presidenciais, queiramos ou não, são minimamente intrigantes, uma vez que tivemos a candidatura do Ex-Presidente Lula indeferida e o mesmo encontra-se encarcerado. É possível traçar uma linha de convergência entre o período ditatorial e o momento em que estamos vivendo?

GN: Não vejo isso. O Lula foi condenado por um juiz de primeira instância. Um juiz sério, íntegro. O Lula tem mais cinco processos, além desse. Agora foi condenado, de novo, em Brasília, em primeira instância. Eu vi o PT roubar! Eu denunciei as ciclovias do Haddad. Eu vi a Marta roubar e denunciei várias vezes. Eu vi o PT roubar. Não é que eu ouvi falar. Eu vi gente que era pobre como eu enriquecer. Eles fizeram da política trampolim econômico pra si e pro partido. Ladrão, no Brasil, tem desde que o primeiro português veio pra cá. Agora, montar uma quadrilha entorno de um governo? O PT se organizou, junto com pessoas de outros partidos, principalmente deste centrão aí, que são ratos, e estão todos eles sendo presos. Tem muito ladrão no Brasil, mas igual o PT fez, de organização e profundidade, eu nunca vi na minha vida. E eu não gosto de ladrão. Eu saí do governo Dória, mandado embora por ele, porque eu desmanchei uma máfia de licenciamento ambiental em São Paulo, na Secretaria do Verde. Então, não é dizer que “só vai no PT”. Eu denuncio a roubalheira de qualquer um. Eu não tenho ladrão de estimação. Roubou, eu quero que julgue, condena e prenda, seja quem for, de qualquer partido.

“O PT quis transformar a prisão do Lula numa prisão política. Eu não vejo isso.”

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