SowetoNa África do Sul, a elite, não satisfeita em ter todo o aparato estatal e privado ao seu lado, quis evitar que a população negra viesse a incomodá-la dentro de seus redutos. Para isso, organizou a população indesejada em guetos. Essa maquinação foi chamada mais tarde de Síndrome de Johanesburgo e bem identificava o pensamento excludente da elite sul-africana. Depois de 20 anos do fim do Apartheid institucional e quase dois meses depois da morte de Mandela, a chamada Síndrome de Johanesburgo ganha vigor, longe da capital sul-africana, mas ainda no hemisfério sul, ainda em uma grande cidade do terceiro mundo.

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Em São Paulo, durante os anos de governos liberais no comando da prefeitura e do Estado, a elite privatizou o solo, espalhando seus condomínios e aparelhos de consumo e bem-estar pelos centros, além de sucatear o serviço público. Todos os antigos campos de futebol de várzea, praças, comércios pequenos e alguns parques públicos têm cedido espaço aos estacionamentos, prédios residenciais de alto padrão e centros comerciais. As moradias pobres vão se empilhando cada vez mais em lugares longínquos e mal aparelhados, ao mesmo tempo em que o preço dos imóveis dispara no centro da cidade, acabando por ecoar também nas periferias.

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Na capital paulistana não foi preciso organizar o espaço urbano e a população de maneira a separar ricos e pobres. O movimento foi natural. A elite acumulava propriedades no centro com a ajuda das administrações públicas que lhes favoreciam. Os pobres foram escanteados pelas leis da oferta e da procura, do livre comércio e do direito à propriedade. Os direitos à moradia, lazer e liberdade de ir e vir foram excluídos da política urbana.

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Uma frase propulsora de ações radicais diz que, “quando as leis são injustas elas precisam ser transgredidas”. A história de São Paulo e de tantas cidades do mundo mostram que, enquanto os pobres reclamam porque querem sobreviver, os ricos acham um absurdo. As invasões de terrenos e construções desabitadas foram criminalizadas pelas leis e moral elitistas. Toda reivindicação que buscasse corrigir o Apartheid dentro de São Paulo e em tantas outras metrópoles do Brasil era brutalmente atacada, enquanto se perpetuava a ladainha de que o Brasil era o país da tolerância racial e social.

Enquanto muitos ainda buscam arduamente um teto para ter onde morar, outros, que a duras penas, por meio de programas de habitação por financiamento público e distribuição de renda, mas principalmente por seu suado e mal remunerado trabalho cotidiano, conseguiram se estabelecer na cidade. Esses que ascenderam economicamente buscam agora lugares para consumir.

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É a sucessão natural da vida em sociedade. Depois de satisfeitas as necessidades básicas, o homem busca a interação e a experimentação de novas alegrias. O consumo se transformou em uma atividade agregadora (por mais paradoxal que isso possa ser), uma maneira de pertencimento para quem chega agora aos locais antes frequentados exclusivamente pelos que sempre tiveram dinheiro. Muito antes de o pobre comprar essa ideia de pertencimento por meio do consumo, as classes mais abastadas já acreditavam fervorosamente nisso, praticavam e se regozijavam. Hoje, via um cinismo odioso, a opulência almejada pelo nascido pobre foi transformada em crime.

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É diante desse cenário de avanço de uma classe ainda carente, mas cada vez mais participativa, que a elite reage cada vez mais preconceituosamente. Se antes era preciso a invasão de um terreno ou de uma casa em uma região central da cidade, hoje basta a locomoção dessa massa renegada aos antros de consumo antes particulares a uma classe historicamente privilegiada para que o exército da nobreza se movimente, agitando suas forças policiais (públicas e privadas) e seu aparelho midiático e político.

Essa elite, que há 130 anos almejava participar do sistema do capital sem abrir mão da escravidão e de seu preconceito, hoje incorre no mesmo erro estratégico – e muito custoso ao sistema que tanto amam – ao desprezar uma massa consumidora, que pela primeira vez na história do Brasil ultrapassa a burguesia em poder de consumo.

Em 2010, a classe C superou as classes A e B em consumo de produtos para o lar. Revertendo uma situação histórica que, em 2002 apresentava um quadro de 56% de consumo para as classes A e B e apenas 27% para a classe C. Oito anos depois, a classe mais baixa entre essas apresentava 43% do poder de compra, contra 39% do topo da pirâmide.

O quadro atual se mostra favorável às classes de menor poder aquisitivo, mas não renegou a elite. Pelo contrário. As classes de cima consumiram, de 2002 a 2010, cinco vezes mais que nos oito anos anteriores. Mesmo assim, ainda permanece com seu desejo de possuir o todo e de dar o nada aos demais.

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A síndrome de Johanesburgo não morreu no acordo entre Mandela e De Klerk e o Apartheid resistiu, cínico e atuante, lá na África e em tantos outros lugares do mundo, dentro dos shoppings, clubes, instituições públicas, corporações e de tantos outros locais de reunião de uma elite branca, que ainda é soberana, mas que tem a sua auto instituída realeza cada vez menos respeitada pelos povos que vêm de baixo.

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