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Esta imagem é meramente ilustrativa | Foto/Reprodução

Minha tia atribuiu as sessões de terapia à falta de Deus no meu coração. Ela entende pouco ou quase nada de psiquiatria e outras ciências. Mas, segundo diz, aprendeu muito com a vida e presenciou o divino fazer maravilhas inimagináveis para incrédulos como eu. Não sou chegado a gritarias em púlpitos e isso explica as idas e vindas da depressão, sentenciou.

Para minha tia, batuques desagradam o velho barbudo. Misericórdia deve ser a palavra mais entoada por sua voz aguda em meio a escândalos. Com ênfase na primeira sílaba: “miiiiisericórdia”. Eu, minhas irmãs e alguns primos achávamos graça de seu comportamento, nos condenando ao fogo eterno a cada palavrão que escapava.

Ela insistiu para uma visita sem compromisso à sua igreja. Usava a mesma retórica de vendedores de roupas e porteiros de consultórios dentários. Nunca mais falaria de meus demônios a quem não conhecia meu coração. Evitei falar sobre ciência, queria mudar de assunto e ir direto ao ponto.

Minha tia insistia na ausência de fé como dona de todo mal do mundo. Violências, traições, depressões, promiscuidade. Culpa da falta do divino. Catástrofes, enchentes, buracos na rua: está tudo escrito no livro sagrado, insistia. Faltava-me crer, completava.

Depois da pregação, falou da graninha que precisava. Sempre pôde contar com o sobrinho bem sucedido. Fui alertado por minha mãe, mas fingi não saber da penúria, apesar das orações fervorosas. Pensei em sugerir preces pela benevolência da fornecedora de energia elétrica. Desisti. Tampouco questionei o dinheiro gasto com o dízimo e seus resultados pífios na busca por um emprego ou pela redução dos juros bancários. Melhor evitar.

Enquanto buscava o talão de cheques no quarto, meus quadros na sala eram questionados. Falou da minha mãe, do meu pai, desse mundo de divórcios, no fim dos tempos, na pornografia e na televisão corrompida pelo inimigo. Este ela não considerava parte do governo atual, pelo que percebi. Pensei se aquela chatice retórica não era pura estratégia para eu emprestar todo dinheiro que pudesse, mas não vejo maldade em minha tia. Assinei o valor que a salvaria naquele mês, me planejei para fazer horas extras e não me apertar nas contas.

Depois da despedida, lembrei seus anos de trabalho, o alcoolismo do meu tio, a faculdade trancada do meu primo e sua alergia a acordar cedo. As brigas, os telefonemas para minha mãe, os choros. Provações e livramentos, cansava de dizer. Sempre torci por ela e não mudei de lado. Cansei de ouvi-la falando de vigílias e orações para que o mal passasse.

Dias depois, voltava a pé da psiquiatra e reparei nas igrejas durante o caminho para casa. Minha tia frequentou três ou quatro delas. Pastores usando chapéus de caubói, com fotos no estilo coaching, com aparência de surfistas. Em uma delas, um casal de moradores de rua dormia em um cantinho do estacionamento de muitas vagas. Na outra, gente vestida feito palestrante distribuía panfletos.

Pode ser que o raciocínio da minha tia faça algum sentido, mas do outro lado. O excesso de Deus no coração causa mazelas. Da violência à miséria, das riquezas nos templos às tragédias em nome de um homem barbudo atrás das nuvens. Não tenho culpa de nada, Ele diz lá de cima.

Tive vontade de telefonar-lhe. Tia, o problema é o excesso de Deus no coração. Tira um pouquinho, pensa aqui embaixo, pé no chão, deixa a outra vida pra depois. Ela me xingaria, gritaria o “miiiiisericórdia” como bordão de programa humorístico, faria escândalo e discutiria por telefone com minha mãe, criticando minha criação. É o excesso de Deus no coração, nunca o inverso, pensei feito cientista gritando Eureka!

Minha tia não costuma ler. Só a Bíblia. Por um lado isso é péssimo, como a insistente falta de leitura nessas terras. Por outro, é até bom:

corro menos riscos de não ver pago o empréstimo da última visita. E ando cansado de fazer horas extras.

 

 

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