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Guerras devastadoras no Oriente Médio, vigorosíssima ascensão da xenofobia na Europa, expansão global do terrorismo e intensificação da tensão Ocidente x Oriente, aprofundamento do conservadorismo e dos choques ideológicos em toda a América Latina, criminalização das periferias no Brasil e em todo o planeta… A humanidade pegando fogo e as escolas e universidades, no mundo inteiro, reduzindo o espaço de estudo das Ciências Humanas, acabando com determinados cursos de graduação, cortando matérias como Atualidades e Sociologia e simplesmente enchendo as grades e a vida com Exatas e as chamadas Ciências da Natureza.

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E, agora, no Brasil, o que pode ser a pá de cal para esse país, levanta-se a possibilidade real de um projeto que, sob a desculpa de lutar contra a “doutrinação de esquerda” nas salas de aula, pretende, basicamente, reintroduzir a censura em um patamar mais contundente do que aquele estabelecido durante a Ditadura Militar, sob o eufemismo ardiloso de “Escola sem Partido”.

Dá pra imaginar que tipo de futuro nos aguarda ao fim desse processo de controle, esterilização intelectual e desumanização programados. Distopias literárias como “Admirável Mundo Novo” e “1984” cada vez mais nos dão dicas certeiras a respeito de para onde estamos caminhando a passos largos.

É evidente que a ideologia dominante, vestida com a suposta “Verdade”, vai mesmo se ver no direito e obrigação de combater as ideologias que criticam o sistema – é assim que as coisas são. O caso é que, hoje, quando se coloca uma posição divergente, ela não é tida como legítima fundamentalmente por não ser “científica” ou “neutra”, como se a visão, desejo e interesse dos senhores do mundo, ou dos donos do país, fossem realmente científicos ou neutros, ou como se fosse razoável não assumir compromisso algum com a História diante das circunstâncias como as que estamos vivendo global e localmente. Esclarecer conjunturas, apontar para possíveis prioridades, destacar situações-problema, elencar alternativas e buscar o diálogo: isso é fundamental, se queremos preservar alguma esperança de que o futuro possa ser mais do que uma máquina ao fim de uma linha de montagem. Suprimir a fala de quem não faz parte dos detentores do poder econômico somente faz favorecer a expansão e poderio do pensamento hegemônico e único – o que só nos levará à manutenção e reforço do status quo. E me parece que nem todos estão realmente satisfeitos com o país e o mundo da forma como eles andam, não? Ou, pelo menos, não deveríamos estar…03

É crucial, para a manutenção de algum nível de democracia, que a opinião pública consiga participar da percepção de que, diante do autoritarismo, da hipocrisia e da barbárie (devidamente fantasiados de austeridade, moral, meritocracia e outros nomes aprumados), é preciso valorizar a Educação e expandir seus limites, e não cair na armadilha fácil e perigosíssima do patrulhamento e da repressão. Como, por exemplo, desconstruir valores sociais machistas, racistas e homofóbicos, sem a ação da escola? Punição pode ser importante, mas não combate as ideias, os preconceitos, as inferiorizações cotidianas, não reforma a cultura. Isso tudo só muda com conhecimento, e conhecimento comprometido em produzir uma humanidade para todos os humanos.
Não deve haver espaço, na escola do século XXI, para se pensar a desconstrução deste tempo – que muito nos lembra do século XIX – e a construção de outro, sob outros valores e perspectivas? É esse o ponto central no embate entre os que temem perder com certas mudanças no mundo e os que brigam por elas por entenderem que a Educação deve assumir também esse papel.

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