Em comemoração aos seus 30 anos de carreira, Beatriz Milhazes divulga seu acervo no Museu da Arte de São Paulo (MASP) e no Itaú Cultural

Esta é a maior exposição dedicada à obra de Beatriz Milhazes. Com sua pintura internacional, a artista trabalha com um grande repertório de imagens associadas a origens e fontes, em pintura, gravura e colagem, mas também em desenho, escultura, livros de artista, têxteis, entre outros.

A exposição feita na Avenida Paulista contém 170 trabalhos feitos desde 1989, sendo expostas pinturas, esculturas, desenhos, uma tapeçaria, livros, documentos e um ponto que diz sobre a trajetória de Beatriz Milhazes e sua ascensão na arte. 

A exposição fica em cartaz de 18 de dezembro de 2020 a 30 de maio de 2021 no MASP e de 12 de dezembro de 2020 a 30 de maio de 2021 no Itaú Cultural, ambos na Avenida Paulista. Com curadoria de Adriano Pedrosa, diretor artístico do MASP; Amanda Carneiro, curadora-assistente do MASP; e Ivo Mesquita, curador independente.

Nascimento de Beatriz Milhazes

Beatriz Ferreira Milhazes, ilustradora, pintora, comunicadora social e professora brasileira nasceu no Rio de Janeiro em 1960. Ingressou no curso de Comunicação Social da Faculdade Hélio Alonso – RJ, e se formou em 1981.

No mesmo ano de sua formação, Beatriz começou a estudar artes plásticas na Escola de Artes Visuais no Parque Lage, onde coordenou atividades culturais junto aos estudantes.

Carreira: “Como Vai Você, Geração 80?”

Em 14 de julho de 1984, Beatriz começou a participar de exposições que caracterizavam a “Geração 80”, na mostra continham exposições no Parque Lage e a organização foi com a finalidade de refletir a produção daquele período: década de 80.

Essa mostra foi intitulada de “Como vai você, Geração 80?”, e reuniu 123 artistas. Quem observava percebia o acesso livre de explorar a ornamentação de ideias, traços e formas distintas feitas por Beatriz Milhazes, que na exposição buscou resgatar o tradicional uso do óleo sobre a tela.

Mesmo sendo uma exposição feita em conjunto, cada artista  não abria mão do seu jeito único de produzir, destacando assim conceitos específicos e singulares em cada obra.

Cada artista também se negava à arte conceitual dos anos ‘60 e 70’; pois nessas décadas, os artistas mantinham o individualismo e o isolamento para produzir seus quadros, já na década de 80 eles se comunicavam de forma mútua e colorida, ampliando juntos os traços finais de artistas dos anos anteriores.

A mostra “Como vai você, Geração 80” teve a participação de artistas da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, em que Beatriz Milhazes frequentava, e contou com a presença de artistas paulistanos da FAAP-Faculdade Armando Álvares Penteado, da Escola Guinard e da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais.

Uma característica marcante das obras apresentadas no evento foi o gestual pictórico, ou seja, gestos e traços próprios do neoexpressionismo, que é o expressionismo moderno, destacado pelos comentaristas, artistas e visitantes.

Entre os destaques houve também múltiplos materiais empregados – como vaselina, parafina, folhas de ouro, toalhas, couros de origem animal e sintética, filmes plásticos, plásticos e arames, vestuário, espuma, pelúcia, luvas, lentes de óculos, etc. –

“Onde está você, 80?”

Centro Cultural Banco do Brasil – Rio de Janeiro

Em 2004, o mesmo curador organiza a mostra “Onde Está Você, Geração 80?”, que foi inaugurada no Centro Cultural Banco do Brasil, agora com 48 artistas e com trabalhos produzidos inspirados na primeira mostra.

Ascensão na arte de Beatriz Milhazes

Além da pintura, a artista começou a se dedicar também à gravura e à ilustração. Em 1996 ela cursa gravura em metal linóleo no Atelier 78, com Solange Oliveira e Valério Rodrigues – gravadores do Atelier.

Em 1997 ela ilustrou um livro, “As Mil e Uma Noites à Luz do Dia: Sherazade Conta Histórias Árabes”, de Katia Canton.  

Mais tarde, Beatriz começou a se destacar em mostras internacionais nos Estados Unidos e na Europa, as suas obras passaram a integrar os acervos de alguns museus como o Museum of Modern Art (MoMA), Solomon R. Guggenheim Museum e The Metropolitan Museum of Art (Met), em Nova York.

Museum of Modern Art (MoMA)

Além dos museus americanos, a artista também esteve em

– Foundation Cartier, Paris (2009);

– Foundation Beyeler, Basel (2011);

– Foundation Calouste Gulbenkian, Lisboa (2012);

– Museo de Arte Latinoamericano (Malba), en Buenos Aires (2012);

– Pérez Art Museum, em Miami (2014/2015).

 

Pop art X Barroco

Ao falarmos de artistas e suas produções, é importante esclarecer a interpretação de cada um, ou seja, o objetivo final de cada criação. Cada cor, juntamente aos objetos e materiais utilizados, expressam um determinado tema que precisa ser esclarecido no quadro, gravura ou escultura.

E por esse motivo, é importante ressaltar que o estilo predominante varia com cada época ilustrativa. Por exemplo: o estilo barroco surgiu na Itália, em 1600. Na época, esse estilo de pintura destacava figuras de linguagem como antítese, paradoxo, hipérbole, metáfora e prosopopeia. Além de destacar o realismo e exuberante decorativo.

Quando artistas do século XXI procuram resgatar esse estilo, eles se deparam com a necessidade de relacionar o barroco com os problemas e aspectos atuais. É como se hoje Leonardo da Vinci pintasse a Monalisa usando tinta guache e tecido comum.

O barroco nas obras de Beatriz

A artista utilizou esse estilo quando pintou o quadro Mariposa, em 2004. A obra gigante (249 x 249 cm) trata-se de um acrílico sobre tela quadrada. O quadro possui múltiplas leituras e é rico em detalhes que ajudam a compor todo o intenso, repleto de informações. O que caracteriza o resgate do estilo barroco, com seu excesso de elementos e ornamentos que impactam o espectador.

Esse quadro fez parte de uma exposição chamada Jardim Botânico, realizada no Pérez Art Museum Miami, nos Estados Unidos.

Pérez Art Museum

Beatriz trouxe para a contemporaneidade costumes e registros de um estilo que ainda é popular e retrata problemáticas atuais. Em suas obras, a artista expõe esse ambiente do barroco como metáfora, a analogia de dualidades em excesso e o decorativo, característica do atual brasileiro.

O pop em Romero Britto

Romero Britto

Em contraponto a Beatriz Milhazes, o artista Romero Britto, que também é brasileiro, busca manifestar em suas artes tendências e criatividade pop. 

Ele nasceu em 6 de outubro de 1963, em Recife – Pernambuco. E começou a sua carreira artística em 1999 quando foi para os Estados Unidos. Dois anos depois, ele já tinha inaugurado em São Paulo a Galeria Romero Britto.

Galeria Romero Britto

Chamado também de “Artista Pop Brasileiro”, Romero criou sua identidade nos Estados Unidos a partir das suas renomadas pinturas para artistas como Madonna, Elton John e Lady Gaga.

Romero se inspira em Picasso, ou seja, o estilo utilizado é o colorido e o neocubista pop. As cores vibrantes marcam os traços do quadro que é multifacetado,  através do desenho as técnicas aprofundam as composições e a interpretação da obra, relembrando os vitrais de igrejas.

Além da caracterização de cores vibrantes, as formas geométricas e assimétricas deixam as obras de fácil entendimento como Heart kids; projeto infantil que caracteriza a afetividade das crianças, envolto de um coração.

Heart Kids

Apesar de Romero Britto ter um marco artístico, e ser conhecido em galerias mundiais, o seu estilo pouco agrada artistas do meio mais “cult”. Alguns apontam o trabalho do artista como superficial, repetitivo e não refletir os problemas do mundo contemporâneo.

Lasar Segall e a Estética Moderna 

Nascido na Lituânia em 1891, visitou o Brasil em 1923 e ficou encantado por São Paulo. Logo resolveu se estabelecer definitivamente, sendo um porto seguro para a arte e ficando longe da Europa conturbada.

Lasar Segall

Em analogia, Beatriz Milhazes faz menção de Segall como grande influenciador para suas criações. Não sendo espelho para os traços e cores, mas para a intenção de criar obras com significados, com objetivos fundamentais e simplicidade na comunicação entre obra e telespectador.

As obras de Segall são marcadas pela estética moderna e bebem das ideias europeias. Entre os temas mais frequentes, estão a migração e a marginalização que o artista encontrou nas paisagens do Brasil e outras transposições, como a desigualdade social, a violência e a pobreza.

Zulmira (1928)

No quadro Zulmira (1928), vemos o retrato da mulher moderna (indicado pelo cabelo raspado), com fundo geométrico e abstrato. Permitindo a interpretação livre do público para um alvoroço que acontecia no Brasil naquela época: crise econômica mundial, a política do café com leite de Washington Luís e a ruptura da semana da arte moderna do ano anterior.

Curiosidades sobre Beatriz Milhazes

OBRA MAIS CARA – MEU LIMÃO (2000)

Imagem composta por vários elementos como flores, mandalas, círculos e arabescos de tamanhos variados que utilizam bem o espaço do quadro. A imagem também apresenta cores fortes e contrastes. 

Foram dois os recordes quebrados: em 2008, a tela O Mágico (2001) foi vendida por US $1,05 milhão. Em 2012, a tela Meu Limão (2000) foi arrematada pela Galeria Sotheby’s por US$ 2,1 milhões.

Beatriz Milhazes

 

PRIMEIRA OBRA: ME PERDOA/TE PERDOO…! (1989)

O primeiro quadro que a artista vendeu foi em 1982, para uma colega do curso de pintura da Escola de Artes do Parque do Lage, no Rio de Janeiro.

Beatriz Milhazes

SUMMER LOVE – GAMBOA SEASONS (2010)

Sócio da Ambev compra obra de Beatriz Milhazes por R $16 milhões. Uma gigantesca tela da artista carioca, “Summer love – Gamboa seasons” (3,00 x 5,00 metros), foi vendida no primeiro dia da exposição na galeria de São Paulo , restrito a colecionadores e convidados, por US $4 milhões (cerca de R$16 milhões). O comprador é Marcel Telles, sócio de Jorge Paulo Lemann e Beto Sicupira na Ambev, 68º homem mais rico do mundo segundo a lista de bilionários da Bloomberg.

Beatriz Milhazes

MULATINHO (2008)

Pintado em 2008, Mulatinho é uma tela típica do estilo da artista: repleta de cores e formas geométricas. A tela tem 248 x 248 cm e atualmente pertence a uma coleção particular. O uso de arabescos também é frequente na poética visual composta pela artista.

Beatriz Milhazes

MARIPOSA (2004)

Pintado em 2004, o quadro fez parte de uma exposição chamada Jardim Botânico, realizada no Pérez Art Museum Miami, nos Estados Unidos. Trata-se de um acrílico sobre tela quadrado com dimensões grandes (249 x 249 cm).

O curador-chefe responsável pela retrospectiva de Beatriz Milhazes, realizada nos Estados Unidos, foi Tobias Ostrander. A mostra reuniu 40 obras da artista.

Beatriz Milhazes

IN ALBIS (1996)

O título do quadro escolhido pela artista significa “inteiramente alheio a um assunto; sem noção do que deveria saber”. Pintada em 1996, a obra é uma acrílica sobre tela de 184.20 cm por 299.40 cm e pertence, desde 2001, ao acervo da Coleção Solomon R. Guggenheim Museum de Nova Iorque (Estados Unidos).

Beatriz Milhazes

 

O ELEFANTE AZUL (2002)

Criada em 2002, a tela “O Elefante Azul” foi levada a leilão na Christie’s e acabou arrematada por quase US$ 1,5 milhão. A artista falou na ocasião a respeito da composição dessa tela específica:

“Ela tem uma estrutura musical em sua composição. A grande característica dentro deste contexto são as pautas musicais que eu comecei a trabalhar no início dos anos 2000 e que eu já vinha trabalhando com os arabescos. São elementos musicais específicos que discutem entre si, com ritmos diferentes, cores e formas criando uma geometria musical”.

Beatriz Milhazes

 

Onde estão as obras de Beatriz Milhazes?

Hoje as obras de Beatriz Milhazes estão no Museum of Modern Art (MoMA), no Solomon R. Guggenheim Museum, do Metropolitan Museum of Art (Met), em Nova Iorque, do 21st Century Museum of Contemporary Art, no Japão e no Museo Reina Sofía, em Madrid.

É possível também encontrar obras da artista na estação de metrô Gloucester Road, em Londres. Em 2007 ela integrou um projeto com o intuito de levar mais “brasilidade” às estações, o projeto foi um sucesso e os painéis feitos em vinil adesivo ficaram na plataforma.

Beatriz Milhazes

Uma intervenção similar, realizada com a mesma técnica, foi feita também em Londres, no restaurante da Tate Modern.

 

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